24/02/2011

Cacique Verón está presente!

No terceiro dia de julgamento foram ouvidos os filhos do cacique e sua mulher

Vanessa Ramos

Na primeira hora do amanhecer toda a comunidade está de pé. Mulheres, homens e crianças se preparam para o terceiro dia de julgamento, dispostos a chegar bem cedo no Fórum Federal Criminal, próximo à Avenida Paulista, em São Paulo.

Fazem o seu ritual e partem do Centro de Acolhida, localizado na periferia da zona norte paulistana. Com os portões ainda fechados chegam ao local do julgamento, começam a se organizar, abrindo as faixas que pedem justiça e fazendo suas pinturas.   

O guarda local os reconhece, abre os portões e eles iniciam ali mesmo um segundo ritual Jeroky para se proteger e para que o julgamento siga bem no transcorrer dos depoimentos. Nesse terceiro dia, foram ouvidos, como testemunhas de acusação, os filhos Ládio Verón Cavalheiro e Araldo Verón, a esposa do cacique Júlia Verón, o funcionário da Funai Jonas Rosa, o delegado João Carlos Girotto, o ex-funcionário da fazenda Brasília do Sul Aparecido Carmona da Silva e a testemunha de defesa José Aparecido de Oliveira Zacarias.

Ládio durante o depoimento afirmou “meu pai era líder religioso da comunidade e fazia parte da grande Assembleia Aty Guasu – Guarani Kaiowá”. Relatou toda a cena de violência ocorrida em 2003 contra a sua família e a ele próprio. Quando traz presente a agressão que faziam contra o seu pai, ele lembra “Eu falava para eles (os agressores), não bata no meu pai, não bata em um velho aposentado, batam em mim, em mim!”.

No momento da declaração de Araldo Verón, iniciou o que se chama “Contradita de testemunha”. A juíza explicou ao júri que isso significa “argüições que as partes fazem para questionar se a testemunha deve ou não depor”. Os advogados de defesa tentaram impedir o testemunho de Araldo, alegando que o mesmo era filho do cacique assassinado e que não teria por isso, condições plenas de dar depoimento.

Depois de debates, esse pedido não foi aceito. Araldo seguiu seu pronunciamento e em um determinado momento fez o reconhecimento dos réus Jorge e Estevão. “Eles estavam atirando”, disse. Transcreveu com detalhes as perseguições e ao final, emocionado, afirmou: “a gente sente muita falta do nosso pai”. Por fim, acrescentou: “acreditamos na justiça, por isso estamos aqui”.

Júlia Verón relatou toda a perseguição ocorrida. Ela ouviu o choro das crianças que estavam na carroceria que tentavam se esconder embaixo do tambor de chicha (bebida tradicional). Eram intensos os barulhos dos tiros que acertavam a carroceria e o tambor. Um dos tiros acertou as pernas de uma das crianças. Escutava também dos capatazes “Atira, mata esses índios”.

O delegado João Carlos Girotto, do Mato Grosso do Sul, assegurou que na violência praticada contra a comunidade indígena “houve todo um planejamento militar da ação”. Durante o seu testemunho contou que a tática da ação foi idealizada por Antônio Batista Rodrigues, ex-policial do DOF (Departamento de Operações de Fronteira), que hoje encontra-se foragido.

Em sua declaração afirmou que essa ação foi uma emboscada, a família do cacique foi de fato capturada e na manhã seguinte do ocorrido, houve sumiço dos vestígios do crime. Contou que foi comprovada a comunicação, através de rádio, entre os carros que perseguiram os indígenas e a fazenda.

Ainda houve o depoimento do ex-funcionário da Funai, Jonas Rosa e de uma testemunha de defesa. Os procuradores de acusação alegaram que o mesmo não poderia falar, pois, estava indiciado com dois processos. Ainda assim, a juíza autorizou que ele respondesse as perguntas, de acordo com a sua disposição, contudo, sem obrigatoriedade.

 Ao fim do dia, a comunidade regressou para onde está hospedada. Segue confiante no julgamento. “Nesse terceiro dia, todas as vítimas Guarani Kaiowá falaram os fatos ocorridos. Esperamos que o júri compreenda e que o espírito da justiça esteja presente”, falou Tonico Benites. 

Fonte: Cimi Sul - Equipe São Paulo
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