22/06/2010

Carta-aberta do Encontro de Atingidos e Atingidas pela Transposição

“O início das obras da transposição do Rio S. Francisco revela a verdadeira natureza e as intenções inconfessas desse projeto. Trata-se de fortalecimento de um modelo de desenvolvimento econômico que serve ao grande capital nacional e internacional e não respeita a população que diz beneficiar”. A afirmação integra o documento final do Encontro de Atingidos pela Transposição do S. Francisco, realizado em Campina Grande – PB, de 17 a 19 de junho de 2010.

 

Eis o documento.

 

Vindos de todos os estados do Nordeste, Minas Gerais e São Paulo nos encontramos em Campina Grande, na Paraíba. Somos 82 pessoas, vítimas dos impactos da malfadada Transposição do rio São Francisco e de outras grandes obras do capital que estão em curso no Nordeste. Representantes de movimentos sociais, sindicatos, associações, comunidades, ONGs, pastorais, nos reunimos durante os dias 17, 18 e 19 de junho de 2010 para discutirmos os males que a realização dessa obra tem nos causado e o que vamos fazer para enfrentá-los.

 

O Projeto da Transposição representou para alguns, inicialmente, a esperança de ter acesso a água farta para nosso consumo e uso na produção.  O início das obras, no entanto, revela a verdadeira natureza e as intenções inconfessas desse projeto. Trata-se de fortalecimento de um modelo de desenvolvimento econômico que serve ao grande capital nacional e internacional e não respeita a população que diz beneficiar. Longe disso, a Transposição tem representado prejuízos e ameaças principalmente para as populações mais pobres, entre elas camponeses, indígenas, quilombolas, moradores das periferias urbanas e não só eles. As suas graves conseqüências se estendem e vitimizam a todos nós nordestinos e brasileiros.

 

A promessa mentirosa de 12 milhões de beneficiados pela transposição já está evidente na longa lista dos impactos atuais sobre a população atingida pelas obras: desalojamento de famílias; perda dos meios de produção e das terras mais férteis; dificuldades de acesso à água; desemprego e subemprego; indenizações não pagas ou injustas; novas moradias não concluídas; escolas precarizadas; migração para as cidades; perda das raízes sociais e culturais; aumento da violência, da prostituição, da gravidez adolescente e do alcoolismo; depressão; casos de suicídio; desinformação e informação distorcida; intimidação e terrorismo sobre pessoas e comunidades resistentes; ameaças por parte de autoridades; funcionários públicos e de empresas; divisão e desintegração de famílias e comunidades; invasão de propriedades; poeira e insegurança nas estradas causadas pelo intenso tráfego de caminhões; casas rachadas em conseqüência de explosões; pequenas comunidades inchadas pela chegada de operários sem infra-estrutura de suporte; comunidades indígenas e quilombolas desrespeitadas; destruição de cisternas de água para consumo humano e uso agrícola e outras infra-estruturas de convivência com o semiárido; desmatamento; extinção de animais silvestres; seca de nascentes, interrupção de rios e riachos e envenenamento de águas; trabalho precário e superexplorado nas obras; pagamentos em atraso; desemprego com o término das obras; igreja dividida, omissa ou francamente favorável ao projeto; órgãos públicos não assumem responsabilidades, empurram para outros; atingidos sem ter a quem recorrer …

 

“Queria esta água; mas não esperava que fosse desse jeito…”; “queria esta água, mas não queria sair” são queixas muito ouvidas estes dias. Queremos água, terra e vida digna, mas dentro de um modelo que respeite a nossa cultura. O semiárido brasileiro é viável, tem água. São 70 mil açudes e 36 bilhões de metros cúbicos de água acumulada. Alternativas mais baratas e viáveis como as divulgadas pelo Atlas Nordeste da ANA (Agência Nacional de Água) e pela ASA (Articulação do Semiárido) estão mais de acordo com o belo sertão que vivenciamos e que almejamos. O que precisamos é democratizar o acesso a esse bem tão precioso para a vida de todos nós.

 

Isso é o que motiva a nossa luta e resistência.  Por isso afirmamos o nosso compromisso em nos mobilizar e continuar na luta para que tenhamos vida e em abundância. A história da Transposição não é nova, é a reedição de folhetins que conhecemos de outros canais.

 

Campina Grande, 19 de junho de 2010.

 

Frente Paraibana em Defesa das Terras, das Águas e dos Povos do Nordeste – Frente Cearense por uma Nova Cultura da Água e Contra a Transposição do Rio São Francisco – Articulação Popular pela Revitalização do São Francisco (MG, BA, PE, AL, SE) – Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) – Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) – Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME) – Conselho Pastoral dos Pescadores – CPP (NE) – Comissão Pastoral da Terra Regionais NE I (CE), NE II (PE, PB, RN, AL) e NE III (BA) – Conselho Indigenista Missionário – Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) – Sindicatos dos Trabalhadores Rurais de Apodi/RN e Santa Maria da Boa Vista/PE – Rede Nacional de Advogados Populares (RENAP) – Marcha Mundial das Mulheres – Diaconia.

 

Fonte: IHU
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