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Pré-Fospa: Amazonas e Roraima se preparam para XI edição do Fórum Social Pan-Amazônico que acontecerá na Bolívia – Parte II

Mesa das Mulheres no Pré-Fospa. Foto: Lígia Apel/Cimi Regional Norte 1

Por Lígia Apel, da Assessoria de Comunicação do Cimi Regional Norte 1

Os encontros preparatórios do XI Fórum Social Pan-Amazônico (Fospa), os Pré-Fospas do Amazonas e Roraima, foram realizados nas respectivas capitais, Manaus e Boa Vista, no dia 11 de maio, com a participação expressiva de organizações da sociedade civil, principalmente dos movimentos indígenas.

Esse segundo texto sobre o evento traz alguns pontos das reflexões sobre Mulheres e Mulheres Indígenas, Saúde das populações da Amazônia e as mazelas decorrentes da precária assistência a essas populações, com destaque ao difícil acesso ao pré-natal das indígenas, violência obstétrica sofrida por essas mulheres que precisam sair de seus ambientes para dar à luz em um lugar estranho com pessoas estranhas. Também se destaca o debate sobre Direitos da Natureza e a importância das alianças entre organizações que estão na linha de frente na luta em defesa da Amazônia e os diferentes olhares dos indígenas e não indígenas.

Todos os assuntos dos Pré-Fospas estarão na bagagem dos participantes do Amazonas e Roraima que irão para o XI Fospa, nos dias 12 a 15 de junho, na Bolívia.

“Nos seus cantos vitalizam a língua materna”

Mesa das Mulheres no Pré-Fospa. Foto: Valter Calheiros

Mulheres: cuidando e construindo

As mulheres da Amazônia terão um eixo específico no XI Fospa, e tiveram nos Pré-Fospa de Manaus e de Roraima debates específicos e especiais sobre a importância da sua árdua luta contra o patriarcado, uma das mais perversas estratégias do capitalismo para dominação.

“Chamar a atenção para os danos sofridos pelas mulheres em várias esferas da vida nas formas patriarcais, discriminatórias e exploradoras dos corpos e vidas femininas, bem como visibilizar a criatividade e cultura de resistência das mulheres”, estão entre os objetivos do Fospa, porque “as mulheres da Amazônia são sujeitos políticos que avançam na articulação das lutas que emergem no âmbito do Fospa”.

Marcivânia Sateré Mawé, da Coordenação de Povos Indígenas de Manaus e Entornos (Copime), confirma essa condição. “As nossas antepassadas cuidaram por séculos dos nossos territórios na Amazônia e, hoje, as mulheres indígenas continuam esse legado diante de um cenário em que pessoas e natureza são vistos como mercadoria”, explica, apresentando os trabalhos que fazem para mudar esse conceito:

“Mesmo diante de tantos desafios, a mulher tem resignificado conceitos nas suas práticas. Se plantam, cultivam abelhas para polinização dos alimentos. Se costuram máscaras ou vestimentas, pintam o grafismo para enfeita-las. Nos seus cantos vitalizam a língua materna. Se confeccionam artesanatos, plantam no terreiro as árvores cujas sementes transformam em arte, em adornos protetivos”, elucida.

A Sateré Mawé explica, também, que a vida da mulher indígena vai além do cuidado com a família. “As mulheres indígenas estão aí, pescando, no roçado, na casa de farinha, na agricultura, confeccionando artesanato, preparando comidas e bebidas típicas, discutindo políticas, fazendo gestão das organizações indígenas e instituições públicas, em salas de aula, acessando benefícios sociais, como o Bolsa Família, que deu a elas maior autonomia em casa”, elenca, mostrando que apesar de toda essa sustentação familiar e comunitária, o trabalho da mulher não é reconhecido como sustentação da sociedade.

“Infelizmente essas ações ainda estão invisibilizadas, negando a elas o reconhecimento da grande contribuição que dão no enfrentamento às mudanças climáticas”, pondera enaltecendo o Fospa como espaço de exercício e visibilização da ação política dos cuidados de manutenção da vida que exercem.

“O Fospa é um espaço que aponta caminhos sustentáveis para a Amazônia, a partir da sabedoria e conhecimento das mulheres: criação de políticas públicas, projetos e programas governamentais que assegurem apoio às ações que desenvolvem em seus territórios”, exalta.

“A gente quer que as vozes populares sejam ouvidas, que os saberes tradicionais sejam considerados, que a medicina tradicional seja respeitada”

Todos os assuntos dos Pré-Fospas estarão na bagagem dos participantes do Amazonas e Roraima que irão para o XI Fospa, nos dias 12 a 15 de junho, na Bolívia. Foto: Lígia Apel/Cimi Regional Norte 1

Nessa perspectiva, o Pré-Fospa de Boa Vista trouxe a representante do Núcleo de Mulheres de Roraima e da Articulação de Mulheres Brasileiras, Nelita Frank, que vê o Fospa como um momento de denúncia das formas de violência contra a mulher.

“O Fospa é um momento em que nós, mais uma vez, denunciamos o avanço do sistema capitalista expropriador que devasta a nossa região. O patriarcado, o fundamentalismo, o racismo, extinguem as formas de vida na Amazônia, humanas e ambientais”, alude e exemplifica com os absurdos crimes em território Yanomami pelo garimpo e em áreas urbanas.

“Nos garimpos da TI Yanomami, as mulheres são vítimas de violações sexuais permanentes. Também na cidade essas violências acontecem. Elas não são seguras para as mulheres. Roraima é um dos estados que mais mata mulheres”, denuncia e exalta a ação conjunta das organizações amazônicas para aliviar essa dor.

“A gente quer que as vozes populares sejam ouvidas, que os saberes tradicionais sejam considerados, que a medicina tradicional seja respeitada. É fundamental fazer esse debate com o conjunto dos movimentos sociais para que juntos tenhamos mais força para denunciar, enfrentar os desafios e, em conjunto, construir caminhos para a população amazônica, indígena, negra, ribeirinha, extrativista”, concluiu.

A relação com o ambiente na realidade amazônica é inerente, direta e essencial

Foto: Valter Calheiros

Saúde humana e ambiental

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define que a saúde ambiental tem uma relação umbilical com a saúde humana. “Saúde ambiental são todos os aspectos da saúde humana, inclusive a qualidade de vida, que são determinados por fatores físicos, químicos, biológicos, sociais e psicológicos no meio ambiente. Também se refere à teoria e à prática de prevenção ou controle desses fatores de risco que podem prejudicar a saúde das gerações atuais e futuras” (OMS, 1993).

Partindo desse conceito, a professora doutora em Saúde Pública, Adele Benzake, trouxe para o Pré-Fospa informações sobre as condições de saúde das populações da Amazônia, especialmente das mulheres indígenas do Amazonas.

Um dos fatores apontados em seus estudos é de que, além dos grandes projetos desenvolvimentistas, agropecuária e mineração que adentram as florestas, a contaminação das águas e do ambiente acontece também a partir dos resíduos industriais, como embalagens plásticas e de metais, que se espalham pelos rios e comunidades. Essa contaminação afeta diretamente a saúde das pessoas porque a relação com o ambiente na realidade amazônica é inerente, direta e essencial.

“O acúmulo de embalagens descartadas no ambiente promove, ao longo do tempo, alto grau de contaminação. Quando o rio desce, é impressionante observar a quantidade de dejetos que não deveriam estar ali”, adverte a professora, exemplificando com o que se viu na seca de 2023.

Outros fatores da saúde ambiental que estão determinando a precarização da saúde no interior do Amazonas são: a abertura de estradas que cada vez mais se expande para os núcleos das florestas, as dificuldades de acesso aos serviços de saúde e a pouca estrutura para assistência por vias fluviais.

“O conjunto de ações no pré-natal ainda está longe do ideal”

Para as mulheres, essa situação é mais grave, e para as mulheres indígenas, ainda mais preocupante. Segundo os dados de Adele, “o conjunto de ações no pré-natal ainda está longe do ideal, com mecanismos fracos para o diagnóstico e tratamento de gestantes, e pouco treinamento dos profissionais em um contexto interétnico”, avalia.

Rosimere Arapaço, da Rede de Mulheres Indígenas do Estado do Amazonas Makira-E’ta, no rio Negro, trouxe o tema das violências sofridas pelas mulheres indígenas e deu ênfase em um dos mais sérios problemas que passam as parturientes: a violência obstétrica.

Ela relata que dados ainda precisam ser levantados, mas que pela experiência que teve acompanhando mulheres indígenas, aquelas que precisam ir à cidade para dar à luz correm sérios riscos. “Essa é uma violência”, explica Rosimere, “que faz parte do quadro de saúde psicológica, física e mental das mulheres”, por todo o envolvimento próprio do momento do parto e porque precisam sair de suas casas e comunidades para parir em um lugar estranho com pessoas estranhas.

Em um de seus acompanhamentos, a Arapaço conta que a mãe precisou ir ao hospital de São Gabriel da Cachoeira para dar à luz, adquiriu infecção e faleceu em decorrência do grave quadro clínico consequente da cirurgia. “Eu presenciei, conversei com os familiares dela, ela [a indígena] fez parto cesariano, deu infecção, e como ela estava em risco, veio a óbito”, lamentou.

Rosimere considera a necessidade de investigação dessas situações, “que não são poucas”, porque é um fator primordial para a resolução desses problemas. “Há muitos casos como esse, e precisa ter uma averiguação melhor para entender de quem é a responsabilidade”, alertou.

“O SUS precisa ter o reconhecimento de parteiras tradicionais e as instâncias da saúde indígena precisam de melhorias”

Quanto às parteiras tradicionais, Rosimere disse que são valorizadas e desempenham papel importante nas comunidades, assim como os pajés, mas é preciso formação, visto que existem situações que elas não alcançam. “As mulheres são, tradicionalmente, parteiras. De fato, elas fazem um bom trabalho, mas nem tudo elas podem resolver”, explica, dizendo que o Sistema Único de Saúde (SUS) “precisa ter o reconhecimento de parteiras tradicionais e as instâncias da saúde indígena precisam de melhorias”.

Na busca de solução para os desafios, Rosimere acredita que o Fospa é um lugar de ampliar as vozes. “O Fospa é uma luz para nós, é um grito maior, um grito coletivo através de desafios que a gente está vivenciando lá na ponta. Precisamos de parcerias para traçar estratégias no âmbito estadual, regional e nacional”, finaliza esperançosa.

“Os direitos da natureza defendem as visões biocêntrica ou ecocêntrica”

Mesa “Povos Indígenas e Territorialidades”. Foto: Lígia Apel/Cimi Regional Norte 1

A Natureza tem direitos

O Pré-Fospa Manaus trouxe, ainda, o debate sobre os direitos que a natureza e a vida que a compõe devem ter, pois são seres que existem e, portanto, devem ser elevados a sujeitos de direito. As Constituições Federais da Bolívia e do Equador já reconhecem a natureza assim, reportando-a a não se constituírem como meros recursos submetidos às beneficies humanas.

Mercy Soares, educadora social do Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (Sares), explanou sobre esse tema e sugere que “o Estado brasileiro deve se espelhar nas constituições do Equador e da Bolívia que elevaram a natureza a sujeitos de direitos”, considerou.

“Nós temos uma grande biodiversidade, uma infinidade de espécies vegetais, animais e minerais, mas não temos leis que garantam a interdependência desses seres como sujeitos de direito. Pensamos o meio ambiente sempre cheio de recursos naturais que tem o objetivo de beneficiar o homem, (…) Nossa constituição reconhece o direito das gerações presentes e futuras a um meio ambiente equilibrado [artigo 225], mas não reconhece a titularidade dos direitos da natureza”, explica.

Dessa forma, “enquanto o direito ambiental preconiza respostas antropocêntricas à destruição do meio ambiente, onde o ser humano está no centro das preocupações e a natureza é considerada mero recurso apropriável a ser explorado, os direitos da natureza defendem as visões biocêntrica ou ecocêntrica”, elabora.

Corroborando as explicações de Mercy, a pesquisadora Renata Grippa em seu trabalho “A Natureza como Sujeito de Direitos”, de 2022, afirma que “a elevação da natureza (Pacha Mama) como um sujeito de direitos pelas constituições do Equador e da Bolívia, é um passo para o reconhecimento mundial da importância da natureza, como condição ‘sagrada’ para a vida e a dignidade da pessoa humana”.

“Essas vozes de mulheres, indígenas, de suas realidades, sonhos e esperanças, fortalece a luta que é de todos”

Aliança é compromisso

A adesão de organizações da sociedade civil à defesa dos direitos sociais e ambientais se amplia quando a vida na Casa Comum está ameaçada. Papa Francisco conclama a todos: “cuidar da nossa casa comum, mesmo sem considerar os efeitos das mudanças climáticas, não é simplesmente um esforço utilitário, mas uma obrigação moral para todos os homens e mulheres como filhos de Deus”.

Para Pe. Adriano Luís Hahn, coordenador do Sares, uma das entidades que contribuiu na organização do Pré-Fospa, a missão do evento se entrelaça com a missão da instituição. “Estar nessa organização é justamente devido à sua identidade porque [o Sares] é um serviço amazônico que busca promover a justiça socioambiental. Sua missão é a defesa do meio ambiente, o direito dos povos indígenas, quilombolas, e de todos os que são vítimas dessa grande crise [que avança sobre a Amazônia] e que lutam pela vida”, declara.

Trazendo as reflexões e as esperanças de Roraima, Vanessa Xavier, da Comissão Pastoral da Terra (CPT-RR), comunga com as propostas do Sares. “Os dados trazem um contexto de violência, de conflitos, mas também da resistência das comunidades. As organizações e movimentos da Pan-Amazônia, tanto da cidade quanto do campo, trazem [ao Pré-Fospa] alternativas e esperanças. A CPT colabora com suas reflexões, seu trabalho e sua ação pastoral. Essas vozes de mulheres, indígenas, de suas realidades, sonhos e esperanças, fortalece a luta que é de todos”, declarou Vanessa.

Alertando para as águas amazônicas, Pe. Sandoval Rocha, do Fórum das Águas do Amazonas, converge as discussões para os recursos hídricos, um Bem Comum essencial para a vida no planeta. “Trazemos o tema água para esse ambiente de reflexão não só porque a Amazônia tem os maiores reservatórios hídricos de água doce do planeta, mas também porque nesse contexto amazônico existe muita agressão às águas: o garimpo, o agronegócio e seus venenos, o esgotamento sanitário [poluente], as indústrias e seu resíduos”, alerta Sandoval, indicando a solução: “ter uma política de cuidado com as águas justa e eficiente”.

Na perspectiva de construir caminhos e políticas adequadas para toda a Amazônia, o Secretário Adjunto, da Rede Eclesial Pan-Amazônia (Repam), Rodrigo Fadul, diz que “há dificuldades pela diversidade socioambiental, mas o Fospa é justamente esse espaço de mostrar as realidades, belezas e desafios. E ao agir nesse caminho preparatório do megaevento da COP-30, ano que vem, nos organizarmos e contribuimos para mudanças reais na vida das populações”, disse.

“Desenvolvimento para quem?”

Foto: Valter Calheiros

Diferentes olhares

Para Dario Kopenawa, o Pré-Fospa é importante porque “é troca de experiências não indígenas e indígenas. Porque eles têm um modo de olhar diferente do modo de olhar como é a vida das populações indígenas”, disse, apontando que a solução para os problemas sociais e ambientais está em ações conjuntas.

“É importante a gente colocar alguns pontos de prioridade, que são principais e que estão afetando há muitos anos e não estão resolvendo. Procurar soluções conjuntas faz parte do fortalecimento de pensamento e coletividade, o que os não indígenas e os indígenas estão pensando para poder entrar no consenso e a gente pedir do Estado brasileiro. Procurar justiça, justiça social, justiça pública para a violação dos direitos dos povos originários. Estamos sofrendo há 524 anos”, exalta.

Historicamente, houveram conquistas, mas foram construídas com a força da coletividade, como diz Dário. Para Mariazinha Baré, da Articulação dos Povo Indígenas do Amazonas (Apiam), elas foram fortes e significativas. Mas é preciso que o movimento fique alerta, porque os ataques persistem.

“Nossos direitos estão garantidos na Constituição Federal. Porém, esses direitos estão sendo desconstruídos em nome do que se chama desenvolvimento. Um desenvolvimento para quem?” assinala Mariazinha, destacando um dos argumentos mais persuasivos utilizados pelo poder econômico: a alimentação.

“Em nome desse progresso que só serve para eles [classe econômica dominante] se fala que explorar potássio em Autazes, no território Mura, vai possibilitar maior produção de alimentos, que vai baratear os alimentos. Isso é uma solução falsa”, denuncia, dizendo que uma das consequências dessa exploração “é expulsar os parentes de suas comunidades, da casa deles, e leva-los para a cidade viver na ‘sapolândia’, nas áreas de periferia”.

“Existem, sim, outras maneiras de produzir alimentos para os brasileiros. A agroecologia e a agricultura familiar são as que sempre deram certo”, reitera e diz que os indígenas precisam ser cautelosos. “A gente precisa estar qualificada com informações sobre essas ameaças e suas consequências para as pessoas e para o ambiente. A gente precisa estar de olhos abertos”, assinala, e conclui que o Fospa é um momento de partilha e busca de soluções.

Confira aqui a carta compromisso na íntegra.

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Tese do marco temporal e demais dispersivos da Lei 14.701 são inconstitucionais e inconvencionais, afirma CNDH em Nota Pública

A marcha “Emergência Indígena: Nossos Direitos não se negociam”, durante a 20ª edição do ATL, teve como pauta inconstitucionalidade da Lei 14.701. Foto: Verônica Holanda/Cimi
A marcha “Emergência Indígena: Nossos Direitos não se negociam”, durante a 20ª edição do ATL, teve como pauta inconstitucionalidade da Lei 14.701. Foto: Verônica Holanda/Cimi
Por Assessoria de Comunicação do Cimi

O Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) se manifestou sobre a Lei 14.701/2023, conhecida como “Lei do Marco Temporal”, e a decisão do Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, em relação às ações de controle concentrado de constitucionalidade ADC 87, ADI 7.582, ADI 7.583, ADI 7.586 e ADO 86, referentes à lei. A Nota Pública é do dia 10 de maio.

Na avaliação do Conselho, o Ministro decidiu, de forma monocrática, suspender as ações e dar início a um processo de mediação e conciliação sobre o tema, não suspendendo, por outro lado, os efeitos da Lei 14.701/2023. “Tal decisão, ao invés de sacramentar anterior posicionamento do STF em torno da tese inconstitucional do marco temporal e de demais dispersivos de tal lei, também inconstitucionais e inconvencionais, acabou por vulnerabilizar ainda mais os direitos dos povos indígenas”, destaca a nota.

“A tese do marco temporal, assim como os demais dispersivos da Lei 14.701, além de serem inconstitucionais e inconvencionais”

A tese do marco temporal, assim como os demais dispersivos da Lei 14.701, além de serem inconstitucionais e inconvencionais, aumentam a susceptibilidade dos povos indígenas às investidas criminosas contra seus territórios, que já estão sofrendo com invasões, grilagem, arrendamentos, garimpos, pesca e caça ilegais, exploração ilegal de madeira e o tráfico de drogas, argumenta o CNDH.

Por diversas vezes o órgão já se manifestou em relação à tese inconstitucional do marco temporal e de outras tentativas de fragilizar os direitos dos povos indígenas, amparados também pelo que dizem os organismos internacionais responsáveis pela observação dos direitos humanos e indígenas no Brasil.

“A Lei do Marco Temporal e a decisão do Min. Gilmar Mendes acabam por recrudescer tal situação, vulnerabilizando ainda mais os direitos dos povos indígenas”

Tanto a “Lei do Marco Temporal e a decisão do Min. Gilmar Mendes acabam por recrudescer tal situação, vulnerabilizando ainda mais os direitos dos povos indígenas, estes que são direitos fundamentais e cláusulas pétreas da Constituição Cidadã de 1988”, reforça o Conselho Nacional dos Direitos Humanos.

Ao mesmo tempo, o CNDH expõe preocupação com as “tentativas de mediação e conciliação de interesses com os direitos e garantias constitucionais que os povos indígenas conquistaram à base de suas lutas e histórias de resiliência. Os Direitos Humanos não se negociam”, afirma o órgão.

Confira a Nota Pública do CNDH Nº 8/2024 na íntegra.

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Povos Yanomami e Ye’kwana repudiam Comissão composta por deputados bolsonaristas para investigar crise humanitária

Terra Indígena Yanomami. Foto: Victor Moriyama
Terra Indígena Yanomami. Foto: Victor Moriyama
Por Assessoria do Comunicação da Hutukara

Nesta segunda-feira (20), a Hutukara Associação Yanomami (HAY), Urihi Associação Yanomami (URIHI), Associação Parawami Yanomami (Parawami) e Associação Wanasseduume Ye’kwana (Seduume), todas da Terra Indígena Yanomami (TIY) divulgaram uma Nota de Repúdio contra a criação de uma nova Comissão Externa na Câmara dos Deputados, por iniciativa de seu presidente Artur Lira (PP-AL), para investigar supostamente a crise humanitária, no maior território indígena do Brasil. A Comissão é composta apenas por deputados ligados ao governo Bolsonaro que sempre atuaram contra os direitos dos povos indígenas: sete do PL, seis do União Brasil, um do MDB e um do Republicanos.

Outras 78 organizações indígenas, indigenistas, ambientalistas, culturais e de direitos humanos de todo o país subscrevem a carta.

“Nosso repúdio e indignação por mais uma ação truculenta da Câmara dos Deputados que pretende utilizar a dor e a morte dos Yanomami e Ye’kwana para objetivos simulados de disputas políticas”

“Manifestamos nosso repúdio e indignação por mais uma ação truculenta da Câmara dos Deputados que, longe de manifestar preocupação e compromisso com nosso povo, pretende utilizar a dor e a morte do povo Yanomami e Ye’kwana para objetivos simulados de disputas políticas e de defesa do garimpo e da mineração em territórios indígenas”, destaca a nota.

Duas Comissões Especiais foram constituídas no Congresso Nacional para acompanhar a situação na TI Yanomami, uma em 2022 e outra em 2023. Ambas concluíram que o descaso e omissão intencional do Estado brasileiro, principalmente durante o governo Bolsonaro, o aumento do garimpo no território e o abandono do atendimento à saúde aos Yanomami e Ye’kwana foram as principais causas da crise humanitária. Em janeiro de 2023 o Governo Federal determinou o estado de emergência. No início deste ano, foi instituída a Casa do Governo em Roraima, com objetivo de assegurar aos povos Yanomami e Ye’kwana melhores condições de saúde, alimentação e proteção.

“O descaso e omissão do Estado brasileiro, principalmente durante o governo Bolsonaro, o garimpo e o abandono da saúde indígena foram as principais causas da crise humanitária”

Garimpo na Terra Indígena Yanomami. foto: Bruno Kelly
Garimpo na Terra Indígena Yanomami. foto: Bruno Kelly

“Esses parlamentares são contra os povos indígenas do Brasil. Eles nunca deram nenhum apoio para as populações indígenas da terra Yanomami. Queremos respeito às lideranças tradicionais e as associações. Como Yanomami, não vimos nenhum desses deputados defendendo os povos indígenas, eles são contra os nossos direitos, são a favor do marco temporal. O Congresso Nacional é contra os povos indígenas!”, disse o vice-presidente da HAY, Dário Kopenawa.

A criação de uma nova Comissão externa, formada por deputados defensores do garimpo e contrários à demarcação das terras indígenas, como os deputados Nicoletti (UB/RR) e Coronel Fernanda (PL/MT) entre outros, “só pode ser entendida como um escárnio e uma afronta ao sofrimento dos povos Yanomami e Ye’kuana e de todos os povos indígenas do Brasil”, reforçam as organizações que assinam a nota de repúdio.

“A criação de uma nova Comissão externa, formada por deputados defensores do garimpo e contrários à demarcação só pode ser entendida como um escárnio e uma afronta”

Na oportunidade, as organizações reforçam as obrigações do Estado brasileiro de adotar todas as medidas necessárias para garantir o direito à vida, à saúde e à proteção de nosso território desses povos. Ao Poder Judiciário declarar, de forma iminente, a inconstitucionalidade da lei 14.701/2023, que instala de forma autoritária o marco temporal e pretende abrir nossos territórios aos interesses insaciáveis de terceiros. Ao Poder Executivo compete intensificar suas ações de combate ao garimpo e desintrusão na TI Yanomami, bem como fortalecer a política de atendimento à saúde de nosso povo. E ao Poder Legislativo cabe cessar sua ofensiva imoral contra os direitos dos povos indígenas e respeitar nossos territórios.

“Estamos revoltados e repudiamos essa comissão nesta nota e queremos que as autoridades respeitem as nossas decisões”

IV Fórum de Lideranças Yanomami e Ye´kuana, 2023. Foto: Evilene Paixão / Hutukara
IV Fórum de Lideranças Yanomami e Ye´kuana, 2023. Foto: Evilene Paixão / Hutukara

“Estamos revoltados e repudiamos essa comissão nesta nota e queremos que as autoridades respeitem as nossas decisões. Não queremos esses deputados no nosso território. Eles precisam consultar o nosso protocolo de consulta, baseado na Convenção 169 da OIT”, finaliza Kopenawa.

“Não queremos que o sofrimento dos povos Yanomami e Ye’kuana sejam instrumentalizados para disputas políticas indecentes e antidemocráticas ou para defender o garimpo e a mineração nos territórios indígenas. É imoral, ilegal e inaceitável!”, reforça a carta.

Confira a nota de repúdio na íntegra, aqui.

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Pré-Fospa: Amazonas e Roraima se preparam para XI edição do Fórum Social Pan-Amazônico que acontecerá na Bolívia

Pré-Fospa realizado em Manaus (AM). Foto: Valter Calheiros
Pré-Fospa realizado em Manaus (AM). Foto: Valter Calheiros
Por Lígia Apel, da Assessoria de Comunicação do Cimi Regional Norte 1

“Sabendo que a união faz a força, desde 2002 pessoas e grupos criaram um espaço de articulação para proteger o que tem sido chamado de ‘pulmão’ do Planeta”, essa foi a perspectiva de criação do Fórum Social Pan-Amazônico (FOSPA) que se consolidou como um espaço de articulação, ação e reflexão relacionado à bacia amazônica que atravessa Brasil, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Venezuela, República Cooperativa da Guiana, Suriname e Guiana (francesa), países que compõe o grande e diverso bioma amazônico.

Desde a sua criação, o Fospa foi realizado no Brasil, Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia. Esse ano, em sua 11ª Edição, o Fospa 2024 acontecerá nas cidades bolivianas de Rurrenabaque e San Buenaventura, no departamento de La Paz, nos dias 12 a 15 de junho, deste ano.

“Sabendo que a união faz a força, desde 2002 pessoas e grupos criaram um espaço de articulação para proteger o que tem sido chamado de ‘pulmão’ do Planeta”

Sempre que um Fospa é agendado, as regiões e estados amazônicos se mobilizam em Comitês nacionais ou regionais compostos por diferentes instituições, organizações, movimentos sociais e comunidades, e realizam os Pré-Fospas em seus países e localidades para preparar, articular, socializar e divulgar o Fospa e os temas que cada rincão da Amazônia levará para o grande debate. Dessa forma, o Fospa “não se reduz a um encontro internacional de poucos dias, mas envolve todo um processo de preparação tanto do país anfitrião como para os demais países participantes”, explica sua coordenação.

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Norte I participou dos Comitês que organizaram os Pré-Fospas em Manaus (AM) e Boa Vista (RR), ambos realizados no dia 11 de maio, último. Em Manaus, o evento aconteceu no auditório do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPA) e trouxe os temas: povos indígenas e territorialidades amazônicas, mulheres, comunicação para a Amazônia e Mãe Terra. Em Roraima, se realizou na Casa das Pastorais Sociais e discutiu sobre povos indígenas e territorialidades amazônicas, mãe terra, extrativismo e alternativas, e mulheres.

Contando com 80 organizações e mais de 150 pessoas representantes da sociedade civil, os participantes dos dois Pré-Fospas traçaram as linhas mestras que estruturam soluções para as necessidades urgentes de proteção da Amazônia.

“Fospa não se reduz a um encontro internacional de poucos dias, mas envolve todo um processo de preparação tanto do país anfitrião como para os demais países participantes”

Pré-Fospa realizado em Boa Vista (RR). Foto: Adriana Chirone
Pré-Fospa realizado em Boa Vista (RR). Foto: Adriana Chirone

Conhecimentos entrelaçados

Para o Comitê Local de Manaus, “o Pré-Fospa é mais que um evento. É um espaço de diálogo e reflexão, onde diferentes vozes se unem em busca de uma Amazônia justa”, afirmaram ao acolher organizações indígenas e indigenistas, mulheres, negros, comunicadores, pastorais e a comunidade científica.

O INPA recebeu o encontro buscando a união dos conhecimentos científicos e tradicionais, todos com suas válidas formas de ser e fazer ciência e que ecoam suas vozes em defesa da Amazônia e seus povos, como destaca Henrique dos Santos Pereira, diretor do Instituto.

“É um encontro necessário dos movimentos sociais que fazem o enfrentamento, a luta em defesa dos direitos territoriais”

“É um encontro necessário dos movimentos sociais que fazem o enfrentamento, a luta em defesa dos direitos territoriais com o INPA. Abrigar o Pré-Fospa é dar um sinal para os dois lados desse diálogo possível e necessário, a ciência e os movimentos sociais, e dizer que a ciência que se quer fazer aqui é para a Amazônia e é para os amazônidas”.

Essa também é a opinião do cacique Jonas Gavião, da Terra Indígena Gavião, localizada em Silves (AM) e que está sendo impactada pela empresa Eneva, que sem consulta ao povo, chegou e se instalou na região, para extração de petróleo e gás natural sem considerar as Terras Indígenas que ali estão. Jonas entende que a união das lutas fortalece os povos porque há compartilhamento de conhecimentos e informações sobre a realidade de cada um.

“A união das lutas fortalece os povos porque há compartilhamento de conhecimentos e informações sobre a realidade de cada um”

Pré-Fospa em Manaus (AM). Foto: Ligia Apel | Cimi Regional Norte 1
Pré-Fospa em Manaus (AM). Foto: Ligia Apel | Cimi Regional Norte 1

“Que a gente possa se unir mais e focar um trabalho coletivo em defesa não só do meu território, mas daqueles territórios que estão na mira da exploração, que nem o potássio lá em Autazes, que nem a exploração de minérios lá na região de Maués. Se a gente se espalhar, vai ficar difícil, mas se a gente se unir vamos ter uma boa oportunidade de falar lá fora e buscar apoio para podermos combater essas coisas dentro do nosso território”, reforça o cacique.

Sem consulta aos povos indígenas da região e com licenciamento do governo do estado do Amazonas, por meio do Instituto de Proteção Ambiental da Amazônia (Ipaam), a Eneva iniciou na quinta-feira, dia 13, a produção de gás natural no chamado campo do Azulão, na Bacia do Amazonas.

“Que a gente possa se unir mais e focar um trabalho coletivo em defesa não só do meu território, mas daqueles territórios que estão na mira da exploração”

Essa situação está incluída no tópico “não proliferação de combustíveis fósseis” que discute Transição Energética no Eixo Temático Extrativismo e Alternativas que, entre outros, será debatido no XI Fospa. A constatação é de que o Estado brasileiro é conivente com os impactos sociais e ambientais, altamente destrutivos, que esse tipo de matriz energética traz. É o que mostra os licenciamentos liberados para empresas como a Eneva, Potássio do Brasil e o banco canadense Forbes & Manhattan, Belo Sun (Pará), Mineração Taboca/Mamoré, entre outros conglomerados empresariais que se instalam na Amazônia.

“Se a gente se unir vamos ter uma boa oportunidade de falar lá fora e buscar apoio para podermos combater essas coisas dentro do nosso território”

Pré-Fospa em Manaus (AM). Foto: Valter Calheiros
Pré-Fospa em Manaus (AM). Foto: Valter Calheiros

Mudanças climáticas

Tão danoso quanto a desenfreada exploração de combustíveis fósseis é o avanço de outros setores econômicos sobre a Amazônia, como a mineração, a agropecuária e o transporte que, com suas formas mercantilistas de ver e entender a natureza, têm colocado o bioma no centro mundial das atenções sobre mudanças climáticas.

“A Panamazônia com suas dimensões continentais e diversidade biológica única, tornou-se o epicentro das discussões sobre emergência climática”, afirma o diretor do INPA, que trouxe esse debate para o Pré-Fospa, apontando que as mudanças no clima “representam uma ameaça existencial, com impactos devastadores que já são visíveis em todo o mundo”, evidenciou Henrique com a situação de seca extrema vivida na Amazônia – Amazonas no ano passado e em Roraima, início de 2024.

“A Panamazônia com suas dimensões continentais e diversidade biológica única, tornou-se o epicentro das discussões sobre emergência climática”

Apontando que a Amazônia tem “papel crucial na regulação do clima global”, o pesquisador analisa que a região é vista como solução para um problema que é global e que exige ações coletivas e coordenadas. “O enfrentamento da emergência climática exige abordagem multifacetada, que englobe mitigação e adaptação. A mitigação requer um esforço global coordenado e enfrenta o dilema da ação coletiva em que os países se recusam a assumir compromissos mais ambiciosos de redução das emissões, ou seja, um problema local que requer uma ação global”, preconiza.

Uma das soluções que vem sendo apontadas, Henrique elucida, são os projetos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+) e mercado de carbono, mas que enfrentam resistência nas populações da Amazônia. “Soluções baseadas no mercado enfrentam críticas substanciais devido aos riscos de violação dos direitos territoriais e sociais das populações tradicionais e povos indígenas da Amazônia. Esses projetos muitas vezes desconsideram as práticas e conhecimentos tradicionais das comunidades locais, resultando em deslocamentos forçados e marginalização”, apresenta.

“Soluções baseadas no mercado enfrentam críticas devido aos riscos de violação dos direitos territoriais e sociais das populações tradicionais e povos indígenas da Amazônia”

Pré-Fospa em Manaus (AM). Foto: Valter Calheiros
Pré-Fospa em Manaus (AM). Foto: Valter Calheiros

Na bagagem, os representantes do Amazonas e Roraima levam para o Fospa uma série de recomendações. Henrique enumera algumas: 1. Reconhecimento e respeito pelos direitos territoriais e sociais das populações da floresta; 2. Políticas de conservação ambiental; 3. Estratégias de adaptação que considerem necessidades específicas; 4. Combate ao desmatamento e degradação florestal com monitoramento, fiscalização e promoção de atividades econômicas sustentáveis.

Para o diretor do INPA, o Fospa será a oportunidade de “amplificar as vozes e impulsionar a ação coletiva em prol do bem-estar de toda a região”, concluiu.

Conhecedora dessas desconsiderações, a coordenadora da Articulação das Organizações Indígenas do Amazonas (APIAM), Mariazinha Baré, é contundente em seus protestos quando fala dos discursos dos governadores da Amazônia sobre transição da economia amazônica para uma economia com projetos sustentáveis.

“Há alternativas que são sustentáveis do ponto de vista socioambiental, mas não quando o governo do Amazonas vende sonhos em Conferências”

“Há alternativas potenciais que são sustentáveis do ponto de vista socioambiental, sim. Mas, quando o governo do Amazonas vende sonhos em uma Conferência do Clima, em Dubai, fala de bioeconomia, mostra projetos no papel, é bonito, mas são soluções falsas”, protesta, alertando para a contradição do discurso com o apoio do estado a “projetos de exploração dos recursos que são danosos ao meio ambiente”, reforça Mariazinha.

No Fospa, diz a Baré, “vamos denunciar essa contradição”, informa e exemplifica com os projetos de exploração de petróleo e gás que há anos são desenvolvidos na Amazônia e que são predadores socioambientais.

“Vamos denunciar as contradições dos projetos de exploração de petróleo e gás que há anos são desenvolvidos na Amazônia”

Pré-Fospa em Manaus (AM). Foto: Valter Calheiros
Pré-Fospa em Manaus (AM). Foto: Valter Calheiros

“Temos visto o governo apostar em mineração, mas essa atividade no Amazonas não teve sucesso. É só olhar Coari, que 38 anos depois da exploração do petróleo, continua com uma série de problemas básicos, com muita pobreza. Agora esse mesmo ‘desenvolvimento’ está sendo prometido para Silves, onde se explora gás, e em Autazes, no caso do potássio”, afirma.

Representando 66 povos indígenas do Amazonas, Mariazinha é confiante quando afirma que a população indígena sabe o que e como fazer para viver na Amazônia sem depreda-la.

“Somos o berço da civilização nas Américas, o território é nosso, somos originários desse lugar. Estamos com insegurança jurídica sobre nossas terras e precisamos continuar lutando. Precisamos, além da terra preservar a água, os peixes, os animais e a floresta que é de onde a gente retira nossa subsistência”, explicitou.

“Temos visto o governo apostar em mineração, mas essa atividade no Amazonas não teve sucesso”

Para a indígena, “os governos precisam entender que terra e território pra nós, indígenas, tem outro significado. Tem o significado da existência. Por isso, os indígenas são os que mais protegem as florestas e, por isso também, os que mais diminuem os impactos das mudanças climáticas. Portanto, desenvolvimento acompanhado do mercantilismo tem passado por cima dos direitos das pessoas”, denunciou.

Mariazinha está confiante no encontro Pan-Amazônico que reunirá povos e ‘parentes’ de outros lugares da Amazônia para a construção de soluções conjuntas. “Vamos nos unir, compartilhar realidades e nos fortalecer para o enfrentamento”, finalizou.

“Os governos precisam entender que terra e território pra nós, indígenas, tem outro significado. Tem o significado da existência.”

Pré-Fospa em Manaus (AM). Foto: Ligia Apel | Cimi Regional Norte 1
Pré-Fospa em Manaus (AM). Foto: Ligia Apel | Cimi Regional Norte 1

Extrativismo com olhar em outra economia

As recomendações do diretor do INPA, longe de serem utopia, são perfeitamente possíveis de se concretizar. Basta pesquisa, ação, reconhecimento e zelo pelos diversos conhecimentos tradicionais e científicos acumulados e vivos sobre a Amazônia. Essa, também, foi a colaboração que o consultor geógrafo e mestre em Ecologia Carlos Durigan, que trabalha na Amazônia há mais de 20 anos, trouxe para o Pré-Fospa, apontando para realidades que perpassam toda a Pan-Amazônia.

“Nos últimos anos a gente vê uma evolução não só no Brasil, mas em outros territórios amazônicos nesse conceito de fortalecimento da governança territorial e de manejo de recursos, estabelecimento de cadeias produtivas sustentáveis e com protagonismo das bases e até, inclusive, estabelecendo mercado para produtos que antes não tinham mercado ou eram escamoteados por preconceito, por tabu”, afirma, elencando as diversas fontes de possibilidades para um “contraponto à agropecuária industrial invasiva”.

“Nos últimos anos a gente vê uma evolução não só no Brasil, mas em outros territórios amazônicos nesse conceito de fortalecimento da governança territorial e de manejo de recursos”

“Com cultivos amazônicos, extrativismo florestal, seja madeireiro ou não madeireiro, incluindo frutas amazônicas, agricultura familiar amazônica, como a mandioca, o açaí, cacau e muitos outros produtos amazônicos que mudam o conceito do extrativismo e que atende demanda externa para construção de oportunidades com protagonismo da base para geração de renda e melhoria da qualidade de vida”, conclui.

Pensando e concretizando essa outra economia, esteve presente no Pré-Fospa de Manaus, através de sua representante Larissa Pires, a Articulação Brasileira pela Economia de Francisco e Clara, que é uma inciativa com base nos princípios fundamentais para uma Economia que “traz vida, não morte, que é inclusiva e não exclusiva, humana e não desumanizadora, que cuida do meio ambiente e não o despoja“ de acordo com o chamado do Papa Francisco.

“Não dá para continuar produzindo sem respeito ao meio ambiente, sem respeito à natureza e sem ter o planeta Terra como a nossa casa comum”

Pré-Fospa realizado em Roraima (RR). Foto: Adriana Chirone
Pré-Fospa realizado em Roraima (RR). Foto: Adriana Chirone

“A economia de Francisco e Clara tem a certeza de que não dá para continuar produzindo sem respeito ao meio ambiente, sem respeito à natureza e sem ter o planeta Terra como a nossa casa comum. E quando falamos de Amazônia, esse ecossistema tão fundamental, precisamos de outra economia. De uma economia que leve em conta todas as vidas, não só as nossas, as humanas, mas também as dos animais, das plantas, e de como a gente precisa de tudo isso para ficar vivo”, afirmou convicta.

O documento final do Pré-Fospa de Manaus contém as linhas temáticas do estado do Amazonas. Assim como, os Pré-Fospas de Manaus e Roraima trabalharam outros temas que serão explanados em outras reportagens.

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Articulação indigenista do Rio Grande do Sul divulga carta aberta sobre situação dos povos indígenas em meio à catástrofe climática

Distribuição de cestas básicas na comunidade Por Fe Ga, do povo Kaingang, no município de São Leopoldo (RS). Foto: equipe de voluntários
Distribuição de cestas básicas na comunidade Por Fe Ga, do povo Kaingang, no município de São Leopoldo (RS). Foto: equipe de voluntários
Por Assessoria de Comunicação do Cimi

Um conjunto de 22 organizações da sociedade civil que estão atuando na assistência emergencial aos povos indígenas atingidos pelas chuvas e enchentes históricas no Rio Grande do Sul divulgou, nesta quinta-feira (16), uma carta aberta sobre a situação destes povos no estado. A carta apresenta um relato sobre a assistência prestada às comunidades atingidas pela catástrofe climática e, especialmente, apresenta propostas de ações emergenciais e estruturais a serem assumidas pelo poder público.

“Nosso objetivo é informar, salientando o papel da sociedade civil organizada no atendimento emergencial aos afetados, e, principalmente, reivindicar por uma maior atuação e comprometimento dos governos, por meio de seus braços operacionais, a ampliar urgentemente o suporte aos territórios e estabelecer aqui um núcleo multi-institucional de atuação de emergência, reconstrução e consolidação de assistência às famílias indígenas”, informa o documento.

As organizações relatam que, em dez dias, realizaram ações emergenciais que atenderam mais de 1300 famílias dos povos Mbya Guarani, Kaingang, Xokleng e Charrua, em 67 aldeias distribuídas por 35 municípios. Um levantamento coletivo aponta que pelo menos 80 comunidades foram atingidas pela catástrofe.

“Em que pese este coletivo conte com servidores engajados e empenhados em sua missão pública diante de uma catástrofe sem precedentes, há uma lacuna na formulação e implementação de uma política pública indigenista que coordene, aglutine e intersetorialize os diversos compromissos legais que cabem ao poder público”, destaca a carta aberta.

“Sem esse eixo central, nos parece improvável garantir a continuidade da atuação coletiva voluntária, num horizonte em que os impactos negativos vão se desdobrar por anos – ou mesmo serão perenes, dado o cenário de mudanças do clima”, prossegue o documento.

“Os povos indígenas constituem os maiores agentes de enfrentamento à crise climática global, ao passo em que são os primeiros a sofrerem as piores consequências da devastação ambiental”

As organizações listam 14 passos de ações a serem assumidas e coordenadas pelo Estado para garantir o bem-estar das no curto, médio e longo prazo dos povos indígenas no Rio Grande do Sul.

Estes pontos incluem ações de organização logística para gestão de doações destinadas às comunidades atingidas pelas enchentes, de construção e reconstrução de infraestrutura nas aldeias e de garantia de direitos como saúde, saneamento básico e soberania alimentar.

Outro ponto central da proposta passa pela questão territorial. Muitas das mais de 80 comunidades atingidas pela catástrofe climática vivem em áreas diminutas e aguardam, há anos, pela regulamentação de suas terras.

As organizações solicitam que “sejam empenhados todos os esforços nos três níveis da federação para garantir o acesso à terra, à regularização fundiária e à infraestrutura digna nos territórios indígenas”.

Além disso, as instituições signatárias da carta propõem que todas as terras de propriedade do estado do Rio Grande do Sul que são habitadas por comunidades indígenas e estão envolvidas em negociação com a União para abatimento da dívida do estado “sejam imediatamente convertidas em Reserva Indígena, uma vez que a dívida encontra-se suspensa por três anos”.

“Os povos indígenas constituem os maiores agentes de enfrentamento à crise climática global, ao passo em que são os primeiros a sofrerem as piores consequências da devastação ambiental”, destacam as organizações.

Leia a carta na íntegra abaixo ou baixe-a aqui, em pdf:

 

Carta Pública

Articulação indigenista no RS

Maio de 2024

Essa carta é direcionada a toda sociedade do Rio Grande do Sul, do Brasil e também à comunidade internacional, mas especialmente às instituições e órgãos públicos das esferas federal, estadual e municipal, buscando oferecer-lhes um contexto fidedigno, bem fundamentado e atual da situação indígena do estado frente à calamidade climática que estamos enfrentando. Nosso objetivo é informar, salientando o papel da sociedade civil organizada no atendimento emergencial aos afetados, e, principalmente, reivindicar por uma maior atuação e comprometimento dos governos, por meio de seus braços operacionais, a ampliar urgentemente o suporte aos territórios e estabelecer aqui um núcleo multi-institucional de atuação de emergência, reconstrução e consolidação de assistência às famílias indígenas.

Constituímos de forma célere uma articulação plurinstitucional entre organizações da sociedade civil indigenistas, indígenas e atores governamentais, com o objetivo de, em curto prazo, reunir e sistematizar informações sobre os territórios indígenas afetados pelas enchentes. De forma concomitante promovemos ações coordenadas que asseguraram a arrecadação e o envio de mantimentos a todas as famílias indígenas das regiões afetadas ao alcance deste coletivo.

Em 10 dias, foram atendidas por estas ações 67 aldeias de 35 municípios, abrangendo mais de 1.300 famílias das etnias Mbya Guarani, Kaingang, Xokleng e Charrua. Estas ações foram imprescindíveis para a mitigação dos efeitos dessa catástrofe climática sobre as comunidades indígenas, sobretudo nos aspectos de segurança alimentar e hídrica, saúde e conforto térmico, com a entrega de cestas básicas, água potável, kits de limpeza e higiene, roupas, cobertores, colchões, lonas e ração animal.

Nossa articulação envolve 17 entidades da sociedade civil e servidores públicos de órgãos governamentais. No entanto, os recursos humanos, financeiros, materiais e a abrangência geográfica são limitados frente ao resultado que se necessita, qual seja, assegurar o amparo emergencial para todas as comunidades indígenas do estado enquanto os efeitos da calamidade persistirem.

Embora o trabalho tenha alcançado resultados notáveis, é evidente, até este momento, a ausência de um processo ágil de coordenação e resposta a emergências climáticas por parte das autoridades públicas competentes. Em que pese este coletivo conte com servidores engajados e empenhados em sua missão pública diante de uma catástrofe sem precedentes, há uma lacuna na formulação e implementação de uma política pública indigenista que coordene, aglutine e intersetorialize os diversos compromissos legais que cabem ao poder público. Sem esse eixo central, nos parece improvável garantir a continuidade da atuação coletiva voluntária, num horizonte em que os impactos negativos vão se desdobrar por anos – ou mesmo serão perenes, dado o cenário de mudanças do clima.

Quando as águas começarem a baixar e a solidariedade que move as ações de apoio não for suficiente para atender todas as demandas, é imprescindível que o poder público tenha ocupado seu devido lugar, assumindo suas obrigações. Se faz necessário, então, que as demandas emergenciais das aldeias passem a ser tratadas como parte das políticas assistenciais e de gestão ambiental e territorial, visando atender a todos os territórios, com recursos financeiros, estrutura física e de pessoal. Sem olvidar que os povos indígenas constituem os maiores agentes de enfrentamento à crise climática global, ao passo em que são os primeiros a sofrerem as piores consequências da devastação ambiental.

A partir deste panorama, solicitamos, como próximos passos no enfrentamento da maior catástrofe climática do RS:

  1. Que seja designada uma instância coordenadora das ações emergenciais de resposta à crise, com participação das comunidades indígenas, frente ao contexto da atual emergência climática no RS;
  2. Que sejam qualificadas e implementadas estruturas de enfrentamento a este evento climático extremo nos órgãos públicos responsáveis pela política indigenista, sobretudo na FUNAI, e se crie uma logística de atuação junto a todas as aldeias para mapeamento e suprimento das necessidades mais urgentes;
  3. Que o poder público formalize estrutura(s) física(s) própria(s) como referência para gestão e logística de donativos às comunidades indígenas afetadas pelas enchentes. Sugere-se que, emergencialmente, a SESAI, o DSEI e seus polos base assumam essa responsabilidade, inclusive de coleta, separação e destinação logística de itens e materiais doados;
  4. Que todas as terras de propriedade do estado do Rio Grande do Sul habitadas por comunidades indígenas, envolvidas em negociação com a União para abatimento da dívida, sejam imediatamente convertidas em Reserva Indígena, uma vez que a dívida encontra-se suspensa por três anos;
  5. Que as comunidades indígenas sejam beneficiárias de medidas emergenciais, tendo menção específica e qualificada de atendimento previstos com ações e estratégias no Plano e Cronograma de Governo RS que será apresentado ao governo federal, como contrapartida à suspensão da dívida que o estado gaúcho tem com os cofres públicos da União;
  6. Que a partir do montante destinado ao socorro e reconstrução do estado do Rio Grande do Sul sejam garantidos recursos específicos para as comunidades indígenas em termos de infraestrutura, vias e estradas de acesso às aldeias, energia elétrica, internet, água potável e saneamento básico, reconstrução e melhorias em moradias, casas de reza e escolas; bem como para o fortalecimento das condições de soberania e segurança alimentar dos povos indígenas em seus territórios;
  7. Que a partir do mesmo montante sejam garantidos recursos específicos para a gestão territorial e ambiental das terras indígenas como forma de promover o etnodesenvolvimento das comunidades, bem como de estimular a restauração ecológica dos biomas Pampa e Mata Atlântica e a retomada do desenvolvimento econômico do estado em bases sustentáveis;
  8. Que os três entes federados contribuam na melhoria das condições de saúde das aldeias, com infraestrutura adequada para os atendimentos, equipes multidisciplinares completas e acolhimento às condições de saúde mental e do desenvolvimento do bem-viver, especialmente em momentos de crise;
  9. Que nas políticas e ações a serem desenvolvidas no âmbito da cultura, dentro do plano de recuperação econômica do estado, sejam contemplados e citados de forma específica trabalhadores e manifestações culturais dos povos indígenas do RS, com alocação de recursos específicos; e que haja provisão orçamentária para o desenvolvimento e a implementação de políticas públicas voltadas à confecção e comercialização do artesanato indígena, como fonte de geração de renda das famílias, assegurando legalmente sua exposição e venda em espaços públicos urbanos;
  10. Que o Governo do Estado do RS assegure a infraestrutura e os recursos necessários à retomada do adequado funcionamento do Conselho Estadual dos Povos Indígenas (Lei Estadual 12.004/2003), garantindo plenamente a participação das/os conselheiras/os indígenas das diferentes regiões deste estado e reconhecendo seu papel na proposição, orientação, articulação e fiscalização das ações implementadas pela administração pública estadual junto à população indígena; que também assegure, ainda este ano, a realização do X Fórum da Cidadania dos Povos Indígenas, evento bianual que não ocorre desde 2019, e cuja importância encontra-se ampliada pela atual crise;
  11. Que sejam empenhados esforços para publicação do Decreto que institui, no âmbito do Sistema Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável, a Estratégia Estadual de Fomento dos Pontos Populares de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, conforme tramita através de processo administrativo (PROA 24/2100-0000425-2);
  12. Que seja criado um Subsistema de Assistência Social Indígena em âmbito emergencial pelo Poder Executivo Federal, e que o Governo do RS encaminhe uma proposta de lei de criação de um subsistema de assistência social indígena no âmbito do Sistema Único de Assistência Social/SUAS ao Presidente da Câmara dos Deputados, e ao Presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, com urgência;
  13. Que anualmente sejam garantidos recursos estaduais com destinação específica para ações de enfrentamento às emergências climáticas nas Terras Indígenas e aldeias do RS;
  14. Que sejam empenhados todos os esforços nos três níveis da federação para garantir o acesso à terra, à regularização fundiária e à infraestrutura digna nos territórios indígenas, com o reconhecimento da tradicionalidade da ocupação nestes espaços que, neste contexto de emergência climática e crise humanitária, são fundamentais para garantir a sobrevivência e o futuro das próximas gerações.

E cada uma e cada um desse grupo, especialmente os das organizações indígenas, que criaram amplas redes de articulações, como a Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpinsul) e Conselho de Articulação do Povo Guarani (CAPG) – sem as quais não teríamos êxito nessa empreitada – seguiremos apoiando dentro de nossas potencialidades, capacidades e disponibilidades; cientes, todos nós, de nosso papel e lugar nesse contexto: de agentes intencionados a transformar as realidades de injustiça, insegurança, vulnerabilidade e desigualdade, sempre atentos à garantia dos direitos, respeito e solidariedade, na perspectiva do Bem Viver. Neste momento, este objetivo nos parece difícil e longínquo, mas todos juntos – reunidas, reunidos; unidas e unidos – sentimos e mostramos que pode, sim, haver um outro mundo possível.

Seguimos.

AEPIM, Associação de Estudos e Projetos com Povos Indígenas e Minoritários

Amigas da Terra Br

AMRIGS, Associação Médica do Rio Grande do Sul

ANMIGA, Articulação Nacional das. mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade

APERGS, Associação dos Procuradores do Estado do Rio Grande do Sul

ARPIN-Sul, Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul

ASIBAMA/RS, Associação dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente e PECMA do Rio Grande do Sul

ASSEMA/RS, Associação dos Servidores da Secretaria de Meio Ambiente do Rio Grande do Sul

CAPG, Conselho de Articulação do Povo Guarani

CGY, Comissão Guarani Yvyrupa,

Cimi, Conselho Indigenista Missionário

Coletivo Cidade na Luta

Conselheiros e colaboradores do CEPI, Conselho Estadual dos Povos Indígenas do Rio Grande do Sul

CTI, Centro de Trabalho Indigenista

FLD-COMIN-CAPA, Fundação Luterana de Diaconia-Conselho de Missão entre Povos Indígenas-Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia

IECAM, Instituto de Estudos Culturais e Ambientais

Instituto Curicaca

Organização Comunitária No Coração da Agulha

Rede Sul de Restauração Ecológica

Servidoras da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Infraestrutura

Servidores da Secretaria Estadual de Saúde

Tela Indígena

 

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Caso “10 Irmãos”: 16 anos de violência contra os povos da Raposa Serra do Sol e acusados continuam impunes

O MPF tem um papel crucial em garantir que mais um caso de violência contra os povos indígenas de Roraima, não fique impune. Foto: ASCOM/CIR
O MPF tem um papel crucial em garantir que mais um caso de violência contra os povos indígenas de Roraima, não fique impune. Foto: ASCOM/CIR
Por Assessoria de Comunicação do CIR

Um dos casos extremos de violência contra os povos indígenas da Raposa Serra do Sol, o caso dos “10 Irmãos”, completou 16 anos, no último domingo, 5 de maio, e o principal acusado, o ex-governador de Roraima, Paulo César Quartiero, além dos demais acusados de cometerem o crime de tentativa de homicídio, continuam impunes.

O caso 10 Irmãos, ficou conhecido em 2008, depois de um ataque a um grupo de lideranças indígenas, que realizavam um trabalho coletivo de reocupação do território, nas proximidades das comunidades indígenas Renascer e Barro, região Surumu. O fato ocorreu no auge da retirada de não indígenas da Raposa Serra do Sol, tendo como último invasor, Paulo César Quartiero, que resistiu até o momento, em que o Supremo Tribunal Federal (STF), obrigou a sua saída do território.

“O caso ficou conhecido em 2008, depois de um ataque a um grupo de lideranças indígenas, que realizavam um trabalho coletivo de reocupação do território na região Surumu”

Após 16 anos de tramitação na Justiça Federal de Roraima, o caso ganhou um novo capítulo. No dia 08 de maio de 2024, o grupo de indígenas covardemente atacados, naquele dia 5 de maio, entre vítimas e testemunhas, tiveram uma audiência no Ministério Público Federal (MPF), autor da ação, para cobrar celeridade no andamento do processo e pedir a responsabilização dos culpados.

O ataque aos 10 Irmãos soma-se a lista de ataques cometidos contra os povos indígenas da Raposa Serra do Sol, como a destruição das comunidades Homologação, Brilho do Sol e retiro Tai-Tai, incêndio ao Centro Indígena de Formação e Cultura Raposa Serra do Sol (CIFCRSS), queimada de pontes, morte de lideranças como Aldo da Silva Mota Macuxi e outras violências. Os indígenas temem que o ataque no dia 5 de maio, fique impune e os acusados, principalmente Paulo César Quartiero, a solta e inocentados dessa violência extrema.

“O ataque aos 10 Irmãos soma-se a lista de ataques cometidos contra os povos indígenas da Raposa Serra do Sol”

Registros de um dos casos extremos de violência contra os povos indígenas da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, o caso dos “10 Irmãos”. Foto: CIR
Registros de um dos casos extremos de violência contra os povos indígenas da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, o caso dos “10 Irmãos”. Foto: CIR

A audiência, acompanhada pela assessoria jurídica do Conselho Indígena de Roraima (CIR), durou pelo menos duas horas, no auditório da instituição. O grupo de 10 indígenas e demais lideranças, depois de anos esquecidos pela justiça, foram recebidos pelo procurador- chefe do MPF, Miguel de Almeida Lima e pelo procurador do 7° Ofício, que cuida das questões indígenas e ambientais, Alisson Marugal.

Durante a audiência, imagens chocantes do ataque foram exibidas, com tiros de armas calibre 12 e 38, bombas caseiras despejadas em cima do grupo, lideranças feridas e mulheres gritando pelos seus filhos e esposos, alvejados pelo covarde ataque. Com olhares fixados na tela, as lideranças relembraram o dia 5 de maio, e levaram ao conhecimento das autoridades esse dia sangrento que ficará marcado em suas memórias. O silêncio e a emoção tomaram conta do ambiente. Entre as lideranças, esteve também o coordenador geral das Serras, da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, Amarildo da Silva Mota, filho do líder indígena Aldo Mota, morto em 2003, em uma emboscada. Amarildo lembrou que o ato do dia 5 de maio é mais um que já acontece há 524 anos, quando tentaram exterminar os povos indígenas do Brasil. Ao pedir justiça, Mota questionou a falta de justiça para o lado dos povos indígenas e indagou. “Se fosse ao contrário, já tinha liderança preso. Já faz 16 anos e nunca tivemos uma resposta”, cobrou. “Por que essa injustiça para o nosso lado? Com certeza, se fosse as comunidades indígenas, já tinha liderança preso. Então viemos aqui pedir justiça, em busca do nosso direito”, cobrou o coordenador regional. Amarildo reforçou que os tiros que acertaram os indígenas “não eram de borracha, mas de chumbo”, como apurado no processo. “O nosso único objetivo é ocupar o que é nosso. Antes, nós não podíamos caçar, pescar e tinha muita poluição ambiental, conseguiram acabar com os nossos igarapés, rios, e hoje, queremos ver a nossa terra recuperada”, considerou, a importância da luta pelo território e que todo sofrimento não foi em vão.

“Por que essa injustiça para o nosso lado? Com certeza, se fosse as comunidades indígenas, já tinha liderança preso”

A professora Tereza Makuxi, presente no dia 5 de maio, indignada pela impunidade dos casos de violência, especialmente dos “10 Irmãos”, não êxitou em reafirmar o motivo de tanta luta pelo território, como a preservação ambiental, dos rios e lagos, além da vivência livre e coletiva. Mãe de uma vítima menor, Tereza cobrou da justiça mais atenção.

“Queremos ser mais ouvidos, queremos ser mais atendidos e nós queremos justiça”, reforçou Tereza, ao cobrar justiça frente ao caso, ocorrido há 16 anos e nenhuma resposta dada aos indígenas. Teresa, também pediu indenização aos povos que sofreram e derramaram sangue, como o seu filho, à época menor, vítima do atentado.

“Durante a audiência, imagens do ataque foram exibidas. Com olhares fixados na tela, as lideranças relembraram o dia 5 de maio”

Com olhares fixados na tela, as lideranças relembraram o dia 5 de maio, e levaram ao conhecimento das autoridades esse dia sangrento que ficará marcado em suas memórias. Foto: ASCOM/CIR
Com olhares fixados na tela, as lideranças relembraram o dia 5 de maio, e levaram ao conhecimento das autoridades esse dia sangrento que ficará marcado em suas memórias. Foto: ASCOM/CIR

“Nós nunca fomos com arma, nós nunca matamos e nunca derramamos sangue de nenhum não indígena, mas nós derramamos o nosso sangue. E hoje, sentimos muito”, concluiu, questionando os repetidos depoimentos dados à justiça e que não fizeram efeito ao caso, até hoje.

Considerando o histórico de violência contra os povos indígenas, sobretudo no Estado, o Conselho Indígena de Roraima (CIR), ao longo da trajetória de 53 anos de atuação, tem sido uma organização fundamental e de apoio às comunidades indígenas frente aos desafios de demarcação e homologação dos territórios, mas  também de garantir a segurança e proteção dos povos indígenas.

“Nós nunca fomos com arma, nós nunca matamos e nunca derramamos sangue de nenhum não indígena, mas o nosso derramaram”

O tuxaua geral do CIR, Edinho Batista, ao comentar sobre o contexto, destacou que a organização já possui um processo movido contra o Estado brasileiro em relação aos casos de violência contra os povos indígenas da Raposa Serra do Sol, tramitando na Organização dos Estados Americanos (OEA), desde 2004, onde, além dos crimes ocorridos ao longo do processo de demarcação e homologação, também apontam a falta de proteção e fiscalização territorial. Disse que, enquanto organização com toda a sua legitimidade de ingressar na justiça, “têm a oportunidade de dar visibilidade à dívida histórica do Estado com os povos indígenas”.

“Com tantas violências que aconteceram e que nunca foram punidos, mas que agora a gente pode falar por nós, ingressar na justiça e isso nós temos como uma iniciativa que possa de fato mostrar para o Brasil e para o mundo que os povos indígenas são parte do Estado Brasileiro, são pessoas que de fato nunca invadiram território, nunca destruíram. Pelo contrário, somos legítimos e originários desse Estado”, afirmou Batista.

“Os povos indígenas são parte do Estado Brasileiro, são pessoas que de fato nunca invadiram território, nunca destruíram”

A audiência, acompanhada pela assessoria jurídica do (CIR), durou pelo menos duas horas, no auditório da instituição. Foto: ASCOM/CIR
A audiência, acompanhada pela assessoria jurídica do (CIR), durou pelo menos duas horas, no auditório da instituição. Foto: ASCOM/CIR

Também cobrou a responsabilização não só do caso “10 Irmãos”, mas também de outros que acabaram ficando impunes pela morosidade do Estado e também dos próprios acusados que tentaram de toda forma, driblar a justiça e ficar impunes.

O Ministério Público Federal (MPF), cujo papel é a defesa dos direitos coletivos, tem um papel crucial em garantir que mais um caso de violência contra os povos indígenas de Roraima, não fique impune. Na audiência, o procurador-chefe, Miguel de Lima, afirmou compromisso de intervir junto à Justiça Federal, para dar andamento no processo o mais breve possível. Ficou de peticionar ainda, na quinta-feira (9), o pedido de audiência às lideranças indígenas.

“Na audiência, o procurador-chefe, Miguel de Lima, afirmou compromisso de intervir junto à Justiça Federal, para dar andamento no processo o mais breve possível”

As imagens do atentado que circularam o mundo foram feitas pelo cinegrafista indígena Aldenir Wapichana, que na época, fazia o registro do trabalho coletivo das lideranças. O mesmo foi perseguido, sofreu ameaças e até hoje, também continua à espera de justiça deste e outros casos de violência contra os povos indígenas da Raposa Serra do Sol, muitos deles registrados por ele. O caso ficou conhecido como “10 Irmãos” devido aos 10 indígenas que ficaram gravemente feridos, inclusive, com balas ainda alojadas no corpo e as sequelas que marcaram o dia 5 de maio. Fato que ainda é difícil ser narrado pelas vítimas, que em meios as poucas palavras e gestos, transmitem no olhar a memória daquele dia.

No retorno ao território, passando pelos corredores do MPF, ficou a esperança, o clamor pela justiça, não somente pelo ataque no processo, mas toda violência sofrida ao longo da luta pela terra, há mais de 40 anos.

“Falar sobre o caso “10 Irmãos” ainda é difícil para as vítimas, que em meios as poucas palavras e gestos, transmitem no olhar a memória daquele dia”

O MPF tem um papel crucial em garantir que mais um caso de violência contra os povos indígenas de Roraima, não fique impune. Foto: ASCOM/CIR
O MPF tem um papel crucial em garantir que mais um caso de violência contra os povos indígenas de Roraima, não fique impune. Foto: ASCOM/CIR

O cenário de violência e até assassinatos de indígenas se estende nos outros territórios e em tempos atuais, conforme apontou o Relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), publicado em julho de 2023, apontando assassinatos ocorridos nos últimos quatro anos, de 2019 a 2022.  O levantamento apontou 281 indígenas assassinados no estado e no Brasil, 795 indígenas.

Conforme o levantamento, a média de indígenas assassinados no período de 2019 a 2022 em todo o país foi de 198, ou seja, 75 casos por ano. Segundo o trecho do relatório, os casos foram relacionados à luta pela terra. “O ano foi marcado por uma série de conflitos e de assassinatos de lideranças e de indígenas ligados à luta pela terra e pela proteção de seus territórios”, diz o trecho.

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Cimi Regional Nordeste lamenta a morte do pajé Maninho Pankararu e celebra seu legado

Pajé Maninho durante conversa com equipe do Cimi na Casai de Recife, em fevereiro de 2024. Foto: Ângelo Bueno/Cimi Regional Nordeste

O povo Pankararu Angico, que há cerca de 15 anos retomou terras tradicionais às margens do Rio São Francisco, perdeu nesta sexta-feira (10) o pajé Maninho, que morreu por volta das 4 horas da manhã de causas naturais.

Pajé Maninho Pankararu Angico “ancestralizou” e agora segue seu caminho no mundo dos encantados protetores das aldeias e habitantes da natureza sagrada e das águas do velho rio. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Nordeste lamenta com pesar a morte, mas certo de que pajé Maninho cumpriu a sua missão.

Maninho faz parte da grande legião dos corajosos guerreiros indígenas que dedicaram sua vida em defesa dos direitos originários dos povos indígenas nesse grande nordeste de Abya Yala.

Homem destemido desde jovem, acompanhava o velho pajé e cacique João Thomaz de Entre Serras Pankararu como parte de um especial pelotão conhecido como “os levantadores de aldeia”.

Entre as décadas de 1970 e 1980, o grupo fortalecia o retorno de povos indígenas a territórios de ocupação tradicional ao longo do Rio São Francisco (o grande Opará), na Bahia e em Pernambuco, caso dos povos Pankararé e Kambiwá, a partir da “tradição”, um conceito próprio destes povos relativo ao sistema de rituais e relação com os encantados.

Nos últimos meses, Maninho vinha enfrentando problemas de saúde, mas estava lúcido e resiliente. Passou pelo Recife, no último mês de fevereiro, quando fez uma bateria de exames. O Cimi esteve com o pajé na Casa de Saúde Indígena (Casai). Na ocasião ele falou a respeito da luta na retomada, dos desafios, da sua história na tradição Pankararu e no levantamento de aldeias.

O Pajé Maninho hoje inicia sua caminhada no mundo espiritual reencontrando seus companheiros de jornada e fortalecendo a busca pela Justiça e reparação histórica.

Como ele mesmo falava: “a gente quando vive luta por aqui. Depois que fizermos a passagem, continuamos a luta mais forte, pois iremos fortalecer a luta pelo lugar em que chegarmos, e quando chamados, em momentos da tradição, retornaremos para dar um empurrãozinho nos que estiverem vivos e assustados”.

Pajé Maninho, presente! Em defesa do Grande Opará e pela declaração da inconstitucionalidade da Lei GENOCIDA 14.701/23.

Recife, 11 de maio de 2024.

Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Nordeste

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Ministra Sônia Guajajara visita TI Xukuru Kariri para reafirmar decisão do governo de protelar demarcações

A visita da ministra aos Xukuru Kariri teve como objetivo prestar esclarecimentos sobre a razão da Terra Indígena ainda não ter sido homologada. Foto: Daniela Oliveira da Silva/Cimi Regional Nordeste
Por Renato Santana, da Assessoria de Comunicação do Cimi Regional Nordeste

Seu Antônio Celestino Xukuru Kariri, 86 anos dedicados à luta pelo território tradicional de seu povo, ouviu atento a ministra dos Povos Indígenas Sônia Guajajara nesta quinta-feira (9), durante visita à Terra Indígena Xukuru Kariri, em Palmeira dos Índios, Alagoas.

“A gente acredita que é só uma assinatura, mas percebemos que existem muitas outras forças contrárias impedindo de fazer (o procedimento demarcatório) avançar”, disse a ministra.

Sônia afirmou que existe vontade política do governo de fazer as demarcações, mas “forças contrárias” têm barrado a publicação de portarias declaratórias, o avanço de processos e as homologações. A decisão do governo de protelar a conclusão dos procedimentos demarcatórios seria em busca de condições políticas mais adequadas.

A visita da ministra aos Xukuru Kariri teve como objetivo prestar esclarecimentos sobre a razão da Terra Indígena ainda não ter sido homologada, além da busca por um diálogo institucional junto ao governador de Alagoas, Paulo Dantas (MDB). Sônia disse ainda que a Lei 14701/23 também vem criando dificuldades para o governo cumprir com suas obrigações demarcatórias.

Na conclusão de seu Antônio Celestino, a visita da ministra, embora importante, serviu para dizer que o governo federal não tem autonomia para cumprir a Constituição Federal na conclusão dos procedimentos administrativos de demarcação de territórios, cedendo aos interesses privados de políticos, parlamentares e empresários influentes.

“Os povos indígenas têm de fazer muito movimento, muita mobilização. O governo, a Justiça não vão dar nada de graça, não”, disse seu Antônio Celestino. O indígena é pai de Maninha Xukuru Kariri, uma das fundadoras da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme).

A Portaria Declaratória da TI Xukuru Kariri está publicada desde 2010: são 14 anos de espera para a conclusão do penúltimo passo do procedimento

Ida a Brasília: em vão

O indígena esteve durante o mês de abril em Brasília, atendendo a um pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que gostaria de entregar para seu Antônio a homologação assinada da Terra Indígena. A Portaria Declaratória da TI Xukuru Kariri está publicada desde 14 de dezembro de 2010; são 14 anos de espera para a conclusão do penúltimo passo do procedimento, de um total de sete, finalizando com o registro em cartório.

Durante a última reunião do Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI), no dia 18 de abril, na Esplanada dos Ministérios, se esperava que Lula assinasse a homologação de seis terras indígenas, entre elas a Xukuru Kariri. No entanto, Lula assinou apenas duas e entre elas não estava a do povo de seu Antônio Celestino.

“Nós queremos o melhor para os indígenas e para os produtores rurais, mas se tiver gente que grilou terra, nós precisamos de uma solução negociada ou então entrar na justiça para tirar eles. Não podemos assinar hoje e amanhã sair uma decisão da Justiça na direção contrária. A frustração seria maior”, disse Lula.

O movimento indígena ouviu o presidente com incômodo e as lideranças rapidamente viram um filme se repetir diante de seus olhos. Organizações indígenas pontuaram que a obrigação da Presidência é homologar as terras indígenas, não se tratando de uma escolha política aleatória.

“Sabemos dessa dificuldade, mas sabemos também que não é o primeiro governo do PT”

Erro que se repete

Entre o primeiro e segundo mandatos da presidente Dilma Rousseff (PT), o então ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, à guisa de conciliação, instalou as denominadas “mesas de diálogo” entre povos indígenas, governo federal e reclamantes privados das terras a serem demarcadas. O objetivo era retirar das demarcações as áreas litigiosas.

Os Xukuru Kariri não aceitaram a redução da demarcação e, desde então, mesmo com todo o procedimento demarcatório concluso para a homologação da Presidência, a Terra Indígena segue com a pendência. “Nossa terra já foi reduzida historicamente. Não podemos aceitar novas reduções”, declarou Gecinaldo Xukuru Kariri.

“Saímos de 26 mil hectares identificados inicialmente para, em 2006, o último GT fechar em 7 mil hectares”, relata Gecinaldo. Foto: Daniela Oliveira da Silva/Cimi Regional Nordeste

A respeito das dificuldades do governo apresentadas por Sônia, para os Xukuru Kariri não são novidades. No entanto, o movimento indígena estranha as reações do governo federal. Gecinaldo lembra da ida do presidente Lula ao Mato Grosso do Sul, em 12 de abril, para sugerir a compra de terras para os Guarani e Kaiowá, e não a conclusão das demarcações dos territórios ocupados tradicionalmente pelo povo.

“Do ponto de vista da conjuntura, não é novidade para Xukuru Kariri. Sabemos dessa dificuldade, mas sabemos também que não é o primeiro governo do PT. Tivemos cinco grupos de trabalho (GT) aqui na TI. Saímos de 26 mil hectares identificados inicialmente para, em 2006, o último GT fechar em 7 mil hectares. Desses, hoje, ocupamos cerca de 3 mil e o resto não está na posse do povo”, relata Gecinaldo.

O indígena questionou a razão da visita, de sua efetividade. Acompanhou o cacique Selmo Xukuru Kariri, que demonstrou a indisposição do povo de seguir se reunindo para tratar da homologação com um governo que tomou a decisão política usando o direito do povo como moeda de troca com parlamentares e políticos locais.

Na esteira das lideranças indígenas, Daniela Oliveira da Silva, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Nordeste, Equipe Alagoas, destacou que existe uma urgência na garantia dos territórios indígenas. No caso da TI Xukuru Kariri, a situação ainda é mais grave porque ele vem sendo cada vez mais reduzido perdendo espaços para plantar e realizar rituais.

“Já basta a gente ouvir do governo que a homologação vai acontecer e não acontece. A TI Kariri Xocó foi homologada há um ano e não houve desintrusão. O GT dos povos do Sertão, que junta quatro povos, que há mais de 25 anos lutam pelos seus territórios, e ainda não teve equipe técnica nomeada”, declarou a missionária.

14 terras indígenas no Nordeste estavam aptas para homologação nos primeiros 100 dias do atual governo

Graves sequelas

Dinamam Tuxá, da coordenação-executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), ressaltou durante a visita da ministra a Alagoas que 14 terras indígenas no Nordeste estavam aptas para homologação nos primeiros 100 dias do atual governo, entre elas as terras Xukuru-Kariri e Monte-mor, do povo Potiguara, na Paraíba.

“De lá pra cá nós estamos de forma sistêmica acompanhando esse processo (…) cobrando nossa ministra, mas também o Ministério da Justiça (e Segurança Pública), em especial, mas da Sônia cobramos que ela nos ajude, porque é papel do Ministério (dos Povos Indígenas) fazer essas articulações políticas para a gente avançar nessas homologações”, disse.

A liderança indígena da Apib lembrou da reunião de abril do CNPI e disse que “aquele dia foi muito doloroso” porque se esperava que o presidente Lula fosse cumprir o prometido aos povos indígenas.

Se dirigindo à ministra, Dinamam deixou um alerta “para a própria Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) e para o MPI é que nesse processo que se arrasta e se prolonga, ele deixa sequelas. Eu digo sequelas no sentido de vulnerabilizar ainda mais as lideranças que estão à frente desse processo e aí vem o processo de ameaça e é o processo de criminalização”.

Para o indígena, a situação Xukuru Kariri é um caso de potencial criminalização “nesse contexto de ameaças, e isso eu acho que vai se acirrar, principalmente com sua vinda (ministra Sônia) aqui, isso já vai gerar rumores, vai gerar apontamentos de pessoas que possivelmente vai sofrer esse tipo de ameaça”.

O Tuxá defendeu que o MPI esteja preparado para mobilizar os órgãos de governo para garantir a proteção das lideranças indígenas e do próprio território. Para a liderança da Apib, o governo precisa lidar com as consequências de suas decisões.

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Os 20 anos do Acampamento Terra Livre e a urgência da demarcação das terras indígenas

No dia 25 de abril, os povos indígenas presentes no 20º Acampamento Terra Livre (ATL) realizaram a marcha “Nosso marco é ancestral. Sempre estivemos aqui”. Foto: Hellen Loures/Cimi
No dia 25 de abril, os povos indígenas presentes no 20º Acampamento Terra Livre (ATL) realizaram a marcha “Nosso marco é ancestral. Sempre estivemos aqui”. Foto: Hellen Loures/Cimi
Por Alcilene Bezerra da Silva* e Saulo Ferreira Feitosa** | Artigo Originalmente Publicado na Folha de São Paulo

No final de abril, cerca de 9 mil indígenas estiveram em Brasília para o ATL (Acampamento Terra Livre). Trata-se de um evento que neste ano chegou à sua 20ª edição: duas décadas de uma das maiores reuniões de povos indígenas da América Latina.

Neste espaço político, o movimento indígena busca visibilidade para suas demandas e reivindica, junto às instâncias do Estado, direitos constitucionais, com destaque para a demarcação das terras que tradicionalmente ocupam.

A Lei 14.701/23, denominada Lei do Marco Temporal, além de representar uma afronta à decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), que declarou inconstitucional a tese do marco temporal, está ampliando o déficit de terras demarcadas.

Um pedido apresentado pelo ATL aos ministros da Corte Suprema é de que a lei seja declarada inconstitucional, alertando para seu efeito de inviabilizar demarcações.

“Lei 14.701 além de representar uma afronta à decisão do STF , que declarou inconstitucional a tese do marco temporal, está ampliando o déficit de terras demarcadas”

O ministro Gilmar Mendes, relator da ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade) que questiona a Lei do Marco Temporal, decidiu suspender a ação para que a Corte possa debater o tema de forma mais ampla, pelo fato de haver também uma Ação Direta de Constitucionalidade (ADC), igualmente suspensa.

Em recente visita ao Brasil, a relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a situação de pessoas defensoras de direitos humanos, Mary Lawlor, declarou que a lei tem levado perigo aos indígenas nas aldeias e áreas retomadas. Lawlor destacou a morosidade nas demarcações e pediu que elas sejam aceleradas.

Durante a reunião do Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI), dias antes do ATL, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) homologou duas terras indígenas, quando eram esperadas as assinaturas de ao menos seis. Lula parece ceder a pressões de grupos fomentadores da Lei do Marco Temporal em detrimento de suas obrigações constitucionais.

Por outro lado, o MPI (Ministério dos Povos Indígenas), que tem feito avançar políticas públicas indigenistas, enfrenta limitações orçamentárias e políticas. A Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) enfrenta as mesmas dificuldades.

“Lula precisa fortalecer institucionalmente o indigenismo oficial e demarcar as terras indígenas, conforme determina a Constituição”

Lula precisa fortalecer institucionalmente o indigenismo oficial e demarcar as terras indígenas, conforme determina a Constituição, mas se mostra afeito a “mesas de diálogo” e iniciativas de conciliação. Nos territórios, essa perspectiva se mostra falaciosa, constituindo-se em mais uma estratégia protelatória do Estado brasileiro e uma armadilha política.

Durante o governo Dilma Rousseff, o então ministro da Justiça José Eduardo Cardozo propôs mesas de diálogos que consistiam em diminuir as terras indígenas. Um fracasso. A maioria dos povos não concordou, o governo interrompeu a continuidade dos procedimentos administrativos, cedendo às pressões dos invasores, mas a violência contra os indígenas não foi interrompida.

Enquanto erros se repetem, “novos atores” anti-indígenas, de forma orquestrada, intensificam suas atividades pelas várias regiões do país, como se pode constatar na ofensiva deflagrada pelo Movimento Invasão Zero contra os povos e seus territórios tradicionais.

“O ATL deste ano marcou ainda os 50 anos do início das Assembleias dos Chefes Indígenas, ocorridas em plena ditadura militar (1964-1985), e embrião do atual movimento indígena”

O estudo “Quem são os poucos donos das terras agrícolas no Brasil – O Mapa da Desigualdade“, publicado pelo Imaflora, revela que 10% dos maiores imóveis rurais ocupam 73% da área agrícola do Brasil, enquanto os 90% restantes, menores, ocupam somente 27%.

Há muita terra nas mãos de poucos. O Cimi (Conselho Indigenista Missionário) informa que 867 terras indígenas estão com alguma pendência administrativa impedindo a sua conclusão. Nelas encontram-se centenas de crianças, jovens, adultos e anciãos sobrevivendo em condições precárias, geralmente desumanas, que de forma aguerrida continuam reivindicando seus direitos originários.

O ATL deste ano marcou ainda os 50 anos do início das Assembleias dos Chefes Indígenas, ocorridas em plena ditadura militar (1964-1985), e embrião do atual movimento indígena. O desafio de continuar existindo e ocupando seus territórios com autodeterminação, une os distintos momentos históricos.

Os 20 anos do ATL demonstram que apesar das dificuldades, os povos indígenas só aceitam a conciliação determinada pelos artigos 231 e 232 da Constituição Federal.

__________

* Alcilene Bezerra da Silva: Vice-presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), e mestranda em educação contemporânea na UFPE

** Saulo Ferreira Feitosa: Integrante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), e professor da UFPE

*** O Artigo foi publicado originalmente na Folha de São Paulo, em 7 de maio de 2024. O link da original é:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/desigualdades/2024/05/os-20-anos-do-acampamento-terra-livre-e-a-urgencia-da-demarcacao-das-terras-indigenas.shtml

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Enchentes já afetaram mais de 80 comunidades indígenas no RS; saiba como ajudar

A comunidade Pindo Poty, do povo Guarani Mbya, que fica localizada no bairro Lami, em Porto Alegre é uma das mais afetadas pelas chuvas no Rio Grande do Sul. Foto: Roberto Liegbott/Cimi
A comunidade Pindo Poty, do povo Guarani Mbya, que fica localizada no bairro Lami, em Porto Alegre é uma das mais afetadas pelas chuvas no Rio Grande do Sul. Foto: Roberto Liegbott/Cimi
Por Assessoria de Comunicação do Cimi

Os impactos das chuvas e das cheias inéditas no estado do Rio Grande do Sul chegam de forma avassaladora em comunidades indígenas da região. Um levantamento colaborativo indica que mais de 80 comunidades e territórios indígenas foram diretamente afetados, alguns com extrema gravidade.

O mapeamento, que segue em atualização, é realizado de forma conjunta pelo Conselho Indigenista Missionário – Cimi Regional Sul, Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), Fundação Luterana de Diaconia, Conselho de Missão entre Povos Indígenas e Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (FLD/Comin/Capa), além do Conselho Estadual dos Povos Indígenas do Rio Grande do Sul (Cepi/RS).

O mapeamento, que segue em atualização, é realizado de forma conjunta

Comunidades dos povos Guarani Mbya, Kaingang, Xokleng e Charrua, espalhadas em 49 municípios gaúchos, são as mais impactadas da região. Dentre as comunidades que se encontram em estado de emergência mais grave, todas elas do povo Guarani Mbya, estão Lami e da Ponta do Arado, situadas no município de Porto Alegre, com 18 famílias atingidas; Yva'ã Porã, em Canela, com 16 famílias afetadas; Flor do Campo e Passo Grande Ponte, em Barra do Ribeiro, com 25 famílias impactadas, e as 19 famílias da aldeia Araçaty localizadas no município de Capivari do Sul.

Nessas comunidades, as famílias precisaram deixar suas casas para se deslocar para áreas mais elevadas, dado o risco de alagamento e deslizamento de terra. Na aldeia Pekuruty, localizada às margens da BR-290, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) destruiu as casas e edificações da comunidade, sem qualquer consulta ou justificativa.

As famílias precisaram deixar suas casas para se deslocar para áreas mais elevadas

Segundo Roberto Liegbott, missionário do Cimi Regional Sul, “essa comunidade foi removida para que o DNIT pudesse consertar uma tubulação que passa ali e eles acabaram destruindo toda a comunidade indígena. Eles arrancaram as casas dos indígenas sem que os Guarani sequer soubessem ou tivessem sido comunicados. Os indígenas no momento encontram-se em um abrigo, mas quando retornarem, a comunidade já não existirá mais, porque o DNIT destruiu tudo”, informou o missionário.

A inundação persiste na região metropolitana de Porto Alegre. A situação ainda é preocupante nos municípios de Canoas, Esteio, Sapucaia do Sul, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Guaíba, Eldorado do Sul e Cachoeirinha, além dos bairros de Porto Alegre, especialmente nas zonas Norte e Sul.

"Eles arrancaram as casas dos indígenas sem que os Guarani sequer soubessem ou tivessem sido comunicados"

O levantamento realizado pelas organizações indígenas e indigenistas ainda está em estágio preliminar e possui o objetivo de auxiliar, nesta fase emergencial, a realização de uma campanha de doação para as comunidades afetadas. “Há um conjunto de entidades e instituições organizadas para ajudar essas famílias não só nesse primeiro momento, mas também depois, na reconstrução de suas casas e aldeias”, explicou Roberto.

As organizações pedem apoio e doação de alimentos, material de higiene e limpeza, lonas, telhas, colchões e cobertores para as comunidades. As doações podem ser feitas na Paróquia Menino Jesus de Praga, na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

As organizações pedem apoio e doação de alimentos, material de higiene e limpeza, lonas, telhas, colchões e cobertores para as comunidades

O Cimi Regional Sul, a ArpinSul e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) também disponibilizaram uma conta bancária para receber doações financeiras.

Além de apoiar a campanha de doação em curso, o mapeamento das áreas impactadas também busca subsidiar informações para cobrar, tanto do governo federal como do governo estadual, providências e amparo às comunidades indígenas do Rio Grande do Sul.

O mapeamento das áreas impactadas também busca subsidiar informações para cobrar providências

“Há também a necessidade que haja a regularização e a demarcação dos territórios, de preferência que se assegure lugares adequados, não degradados, para que essas famílias possam viver tendo um horizonte de segurança e não de vulnerabilização como ocorre hoje”, considera Roberto Liebgott.

PONTO DE COLETA

Doações para as comunidades indígenas: Paróquia Menino Jesus de Praga, Rua Dr. Pitrez, 61, bairro Aberta dos Morros, Porto Alegre/RS.

Horário: das 08h às 12h e das 14h às 18h.

DOAÇÕES

As doações podem ser feitas para:

Banco do Brasil
Agência: 0321-2
Conta Corrente: 128891-1
Cimi Regional Sul

Chave Pix: 566601e8-72b1-4258-a354-aa9a510445d1

Para doações internacionais
Iban: BR9500000000003210001288
911C1
Código Swift:
BRASBRRICTA

QR-Code:

Atenção: antes de confirmar o pagamento do QR Code verifique se esta em nome do Conselho Indigenista Missionário (CIMI)