
Foto: Cimi Regional Leste
Há cantos que não pertencem apenas ao passado, eles atravessam gerações e seguem sendo prática viva que sustentam a memória coletiva. No dia 11 de fevereiro, na aldeia Rancharia/Tenda, no território Xakriabá, teve início uma experiência de acompanhamento a crianças e adolescentes voltada ao resgate e ao fortalecimento do Reisado. Os anciões contribuíram diretamente com o processo de transmissão dos saberes do Reisado junto às crianças e aos adolescentes. A celebração remete ao período de aldeamento e é reconhecida pelo povo como parte do sincretismo religioso que se mantém até os dias atuais.
O sincretismo, nesse contexto, está diretamente interligado a uma estratégia de sobrevivência e, ao longo do tempo, foi sendo incorporado como prática cultural Xakriabá, agregando elementos próprios da cultura e da espiritualidade do povo como forma de manter viva a fé diante dos intensos processos de catequização e controle territorial ocorridos a partir do século XVII.
A Folia de Reis na comunidade indígena Xakriabá possui especificidades próprias de cada realidade. O Reisado é vivido com profundo respeito e fé, reunindo cantos, instrumentos e formas de expressão locais à tradição católica, fortalecendo a identidade cultural, adaptando instrumentos e modos de cantar e integrando-se aos ritos e à identidade do povo.
“A experiência teve como foco fortalecer a tradição por meio do intercâmbio de saberes entre anciões, foliões e as novas gerações”

Foto: Cimi Regional Leste
Presente em diversas aldeias, a prática vem passando por modificações devido às mudanças e transformações que têm afetado diretamente a vida e o cotidiano do povo. A experiência, iniciada na Rancharia/Tenda, teve como foco fortalecer essa tradição por meio do intercâmbio de saberes entre anciões, foliões e as novas gerações, reafirmando a oralidade como caminho de transmissão de conhecimentos e a convivência comunitária como fundamento do Bem Viver.
Embora direcionada a crianças e adolescentes, a atividade contou também com a presença das famílias que se somaram a esse importante espaço de aprendizado. Elas expressaram preocupações com o futuro diante das facilidades e ofertas externas que tendem a enfraquecer e desmobilizar a vivência comunitária e a participação coletiva, tensionando modos tradicionais de organização social.
A presença expressiva da comunidade evidencia que práticas que vêm sendo silenciadas exigem diálogo permanente e compromisso coletivo, visto que o futuro está diretamente interligado aos caminhos que estão sendo trilhados pelas gerações atuais e futuras. Este espaço formativo foi significativo e demonstrou que a cultura também pode ser vista por um caminho que muitas vezes se inverte e, aos poucos, revela que a ancestralidade também pode ser percebida sob o olhar de quem está nascendo, bem como a importância do renascimento de práticas que exigem persistência diante de um povo que expressa sua religiosidade por meio de diversas manifestações de fé, de transmissão de saberes, de fortalecimento cultural e de afirmação de sua identidade.
“Mais que uma atividade pontual, o encontro reafirma que cultura não é herança imóvel, é território em disputa”

Foto: Cimi Regional Leste
Nesse processo formativo, destacou-se o interesse, a escuta atenta, a participação nas oficinas práticas, o canto e o “esperançar” manifestado pelas crianças e adolescentes, especialmente na demanda pela continuidade das atividades e pela abordagem de temas que também desafiam os mais velhos.
Mais que uma atividade pontual, o encontro reafirma que cultura não é herança imóvel, é território em disputa. Em um contexto de pressões externas, mercantilização da vida e fragilização de vínculos coletivos, fortalecer o Reisado significa sustentar modos próprios de existir, crer e organizar a vida.
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*As atividades junto às crianças e adolescentes Xakriabá contaram com a contribuição de lideranças, anciões, professores e professoras de cultura e comunidade, bem como do Cimi Regional Leste “Corredor do Cerrado”.