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Com a força dos troncos velhos, a Teia fortalece a defesa dos territórios no Maranhão

17º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão. Foto: Andressa Algave | Assessoria de Comunicação do Cimi Regional Maranhão

17º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão. Foto: Andressa Algave | Assessoria de Comunicação do Cimi Regional Maranhão

Por Grupo de Trabalho de Comunicação da Teia dos Povos e Comunidades do Maranhão

O perfume das folhas e das águas de cheiro, a fumaça da defumação desenhando o ar sob a casa redonda, a terra vermelha do Cerrado maranhense aquecida pelo sol forte de julho. Era assim que o Território Quilombola Tanque da Rodagem e São João, em Matões (MA) recebia quem chegava. Ali, não havia espectadores; era gente disposta a partilhar a vida, a memória e a luta.

De todos os cantos do estado chegaram indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu, pescadores e pescadoras artesanais, ribeirinhos, camponeses, sertanejos, juventudes, crianças, anciãos e organizações aliadas e parceiras. Sementes crioulas guardadas por gerações, cestos de palha, bandeiras, tambores, maracás, cantos, rezas e encantarias. Também ocupavam o espaço aquilo que não cabe nas bagagens: as cicatrizes dos conflitos, as histórias de resistência e a esperança insistente de quem segue defendendo o território como extensão do próprio corpo, pois de fato é.

Durante cinco dias, entre 3 e 6 de julho, cerca de mil pessoas transformaram o território em uma grande casa comum. Enquanto crianças corriam livres entre as palhoças, panelões alimentavam centenas de pessoas, sementes circulavam de mão em mão e os tambores marcavam o compasso das celebrações, as vozes também denunciavam a violência, o avanço do agro-hidro-minero-negócio e a contaminação dos territórios pelos agrotóxicos. Mais do que um encontro, a Teia reafirmou aquilo que sustenta sua existência há quinze anos: ninguém luta sozinho. Naquele chão sagrado, celebrar, denunciar, aprender e esperançar eram partes do mesmo gesto coletivo. Território vivo recebendo outros plurais territórios.

“O perfume das folhas e das águas de cheiro, a terra vermelha do Cerrado maranhense aquecida pelo sol forte de julho”

17º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão. Foto: Andressa Algave | Assessoria de Comunicação do Cimi Regional Maranhão

17º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão. Foto: Andressa Algave | Assessoria de Comunicação do Cimi Regional Maranhão

A marcha que levou o território para as ruas

Na manhã do dia 4 de julho, os pés e os tambores se estendem da comunidade às ruas de Matões (MA). A cidade escutava, ali, denúncias daquilo que, por muito tempo, tentaram invisibilizar de forma estratégica, pelos opressores nos territórios tradicionais. O grito ecoou. Quem tinha ouvidos para ouvir, ouviu.

Faixas, cartazes, maracás, danças e palavras de ordem abriram caminho para uma marcha marcada pela denúncia das violações enfrentadas não apenas pelos povos de Matões, mas por comunidades tradicionais de todo o estado. O centro da cidade transformou-se em um grande espaço de mobilização popular. No microfone aberto, um relato sucedia a outro: conflitos fundiários, pulverização aérea de agrotóxicos, destruição ambiental, mineração, violência contra lideranças, ameaças aos territórios e a omissão do poder público em todas as suas esferas.

“Tá sendo maravilhoso, porque a gente tá reencontrando pessoas que nos ajudaram quando a gente estava precisando, lá em 2021, quando passamos por um conflito”

Mas a caminhada carregava esperança e alegria. A cada canto coletivo, a cada tambor e maracá balançado, respondendo às palavras de ordem, reafirmava-se que a resistência também se constrói caminhando juntos e juntas.

“O Encontrão da Teia é muito importante. Tá sendo maravilhoso, porque a gente tá reencontrando pessoas que nos ajudaram quando a gente estava precisando, lá em 2021, quando passamos por um conflito. Essas pessoas nos ajudaram a nos fortalecer e a dar continuidade à nossa luta. Agora, a gente tá tendo essa troca novamente, de experiências e de saberes. É bom demais estarmos todos juntos novamente. A Teia vai deixar ainda mais saberes, vai fazer com que a gente se una mais e fortaleça ainda mais a nossa comunidade”, afirma uma liderança quilombola do Território Tanque da Rodagem.

“A Teia vai deixar ainda mais saberes, vai fazer com que a gente se una mais e fortaleça ainda mais a nossa comunidade”

17º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão. Foto: Pytxỹ Akroá Gamella

17º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão. Foto: Pytxỹ Akroá Gamella

Saberes que brotam como sementes

No domingo, 5 de julho, se as denúncias revelaram as urgências do presente nos dias anteriores, as rodas de conversa apontaram os caminhos do futuro. Ao longo da programação, os povos se organizaram em diferentes esteios da Teia para discutir soberania alimentar, saúde, comunicação, educação, autogestão, economia, defesa dos territórios e relações de gênero.

Não eram debates abstratos. Cada proposta nascia da experiência concreta dos territórios: do banco comunitário criado por uma comunidade, das práticas tradicionais de cuidado em saúde, da comunicação feita no chão dos territórios, da preservação das sementes crioulas e das formas coletivas de organização que sustentam o bem viver.

“Não eram debates abstratos. Cada proposta nascia da experiência concreta dos territórios”

17º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão. Foto: Andressa Algave | Assessoria de Comunicação do Cimi Regional Maranhão

17º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão. Foto: Andressa Algave | Assessoria de Comunicação do Cimi Regional Maranhão

Os troncos velhos guardam o amanhã

Na manhã da segunda-feira, 6 de julho, centenas de sementes foram reunidas. Vindas de diferentes territórios, carregavam histórias, famílias, modos de plantar e de existir. Livres de transgênicos e de venenos, passaram de mão em mão ao som das cantorias, das preces e dos maracás, envoltas pelo respeito e pela sacralidade que lhes são próprias.

Não era apenas uma troca. Era um pacto entre gerações e culturas. Cada semente levada de volta para casa carregava consigo o compromisso coletivo de preservar a biodiversidade, fortalecer a soberania alimentar e garantir que os conhecimentos ancestrais continuem vivos.

Logo depois, os Encantados chegaram à plenária. Os tambores voltaram a pulsar. Os maracás marcaram o ritmo. As cantorias atravessaram o espaço lembrando que a luta também precisa alimentar o espírito. Ali, Cronos já não ditava o tempo. As horas deixaram de ser medidas. Tudo acontecia na duração necessária de cada canto, de cada ritual e de cada silêncio. Era outra lógica, outro compasso, outra maneira de habitar o tempo.

“Os tambores voltaram a pulsar. Os maracás marcaram o ritmo. As cantorias atravessaram o espaço lembrando que a luta também precisa alimentar o espírito”

17º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão. Foto: Andressa Algave | Assessoria de Comunicação do Cimi Regional Maranhão

17º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão. Foto: Andressa Algave | Assessoria de Comunicação do Cimi Regional Maranhão

Uma carta escrita com muitas vozes

O encerramento do Encontrão aconteceu como toda a Teia se constrói: coletivamente. Após dias de escuta, debates e construção política, foi aprovada a Carta do 17º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão.

Resultado das reflexões construídas ao longo dos cinco dias de programação, o documento reafirma o compromisso com a defesa dos territórios, o enfrentamento aos agrotóxicos, a luta contra o marco temporal, a proteção das águas, dos babaçuais e das espiritualidades, além de assumir o bem viver como horizonte político comum. A Carta também expressa a preocupação com o cenário eleitoral de 2026, defendendo o enfrentamento de projetos políticos que colocam o lucro acima da vida, da natureza e dos direitos dos povos tradicionais. Ao afirmar que os povos são sujeitos políticos, a Teia assume o compromisso de fortalecer uma participação popular comprometida com a democracia, a justiça socioambiental e a defesa dos territórios.

“Ao afirmar que os povos são sujeitos políticos, a Teia assume o compromisso de fortalecer uma participação popular comprometida”

17º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão. Foto: Andressa Algave | Assessoria de Comunicação do Cimi Regional Maranhão

17º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão. Foto: Andressa Algave | Assessoria de Comunicação do Cimi Regional Maranhão

A Carta ainda homenageia a trajetória construída ao longo dos 15 anos da Teia e convoca as novas gerações a assumirem a missão herdada dos “troncos velhos”, reafirmando que a continuidade dessa luta depende da união entre memória, ancestralidade e organização popular.

As caravanas partiram. Mas quem esteve no Território Tanque da Rodagem e São João levou consigo algo impossível de guardar apenas na memória: a certeza de que uma Teia continua viva porque seus fios são feitos de gente que planta, que reza, que denuncia e que insiste. Porque, como lembra a frase que conduziu todo o Encontrão, “com a força dos troncos velhos, brota a nossa resistência”.