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“Nossa luta é pela continuidade da vida”: mulheres indígenas lançam carta contra silenciamento e exploração dos territórios

“Viemos de diferentes territórios, carregando conosco a força de nossos ancestrais, nossos cantos, nossas línguas, nossos conhecimentos, nossas sementes e nossas histórias de resistência”.

Por Assessoria de Comunicação do Cimi

Cerca de 200 mulheres indígenas de diferentes povos e territórios se reuniram entre os dias 16 e 19 de julho, na Aldeia Katurãma, em São Joaquim de Bicas (MG), para o Intercâmbio de Mulheres Indígenas, promovido pelo Cimi Regional Leste. Sob o tema “Memória ancestral e o fazer político: mulheres indígenas e suas lutas em defesa da vida e proteção dos territórios”, o encontro reuniu representantes de povos como Pataxó, Pataxó Hã-Hã-Hãe, Xucuru Kariri, Xakriabá, Tupinambá, Kiriri e Kaiowá, entre outros, além de organizações parceiras como a FIAN Brasil, a Cáritas Regional Minas Gerais e instituições de ensino e ligadas à Igreja. Ao final dos quatro dias de atividades, as participantes tornaram pública uma carta coletiva.

No documento, as participantes reforçam sua atuação como “guardiãs da memória, da espiritualidade, das águas, das florestas, das sementes e dos territórios” e afirmam que defender esses territórios é defender o equilíbrio da natureza e o futuro das próximas gerações.

A carta denuncia o avanço da exploração sobre as terras indígenas (mineração, desmatamento, racismo, violência contra as mulheres e criminalização de lideranças), destacando em particular os impactos da mineração de terras raras, que aprofunda conflitos, contamina rios e ameaça lugares sagrados, além da sobrevivência física, cultural e espiritual dos povos.

“Não aceitamos que nossas vozes sejam silenciadas. Nossa participação é um direito e uma necessidade para fortalecer nossos territórios”, afirma a carta.

Como alternativa de outros mundos possíveis, o texto reafirma a agroecologia, a soberania alimentar e o cuidado com as sementes tradicionais e os quintais produtivos como caminhos para o Bem Viver, descrevendo a relação dos povos indígenas com a terra a partir do pertencimento e da reciprocidade, e não da exploração. As mulheres também reivindicam o reconhecimento da espiritualidade — rituais, rezas, cantos e plantas medicinais – como patrimônio vivo a ser protegido, e defendem a ampliação de sua participação política em todos os espaços de decisão, das comunidades às instituições públicas.

Entre os compromissos assumidos coletivamente está o fortalecimento da articulação e da formação política das mulheres indígenas, a defesa dos territórios frente a invasões e violências, o incentivo à agroecologia e a economias sustentáveis, a preservação e transmissão dos saberes ancestrais, e a ampliação da comunicação indígena e de alianças com movimentos sociais e instituições voltadas à justiça socioambiental.

“Nenhum sangue indígena deve ser derramado”

O documento termina com um alerta contundente: a recusa das mulheres indígenas em aceitar que a omissão, a negligência ou a violência continuem produzindo mortes em seus territórios. “Nenhum sangue indígena deve ser derramado”, afirma a carta, que reforça o direito de cada liderança, mulher, criança e ancião a viver com dignidade, segurança e paz em seus territórios ancestrais. Enquanto houver mulheres indígenas resistindo, diz o texto, haverá esperança, território vivo e ancestralidade fortalecida.

Leia a carta na íntegra:

CARTA PÚBLICA INTERCÂMBIO DE MULHERES INDÍGENAS – CIMI REGIONAL LESTE 

Reunidas entre os dias 16 e 19 de julho de 2026, na Aldeia Katurãma, em São Joaquim de Bicas (MG), cerca de 200 mulheres indígenas, representando diversos povos e territórios, reuniram-se para participar do Intercâmbio de Mulheres Indígenas. O encontro foi realizado sob o tema “Memória ancestral e o fazer político: mulheres indígenas e suas lutas em defesa da vida e proteção dos territórios“.

Estiveram presentes mulheres dos povos Pataxó, Pataxó Hã-Hã-Hãe de Minas Gerais e da Bahia, Xucuru Kariri, Kamakã Mongoió, Puri, Borum-Kren, Tupinambá de Olivença, Tupinambá de Eunápolis, Kiriri de Muquém, Kiriri de Barreiras, Kiriri de Caldas, Tuxá de Ibotirama, Xakriabá, Aranã, Canoeiro Maxakali, Tapuia, Kaiowá e Quechua, além de instituições parceiras: FIAN Brasil, Caritas Regional Minas Gerais, Província Santa Cruz dos Franciscanos OFM, Kaipora – Laboratório de Estudos Bioculturais (UEMG/UFMG), Comissão Pastoral da Terra (CPT-MG), Nea Mutiró, Pró-Reitoria de Políticas Públicas Afirmativas e Povos Originários do Centro Universitário Dom Helder, Jesuítas, Comissão Episcopal para Ecologia Integral e Mineração (CEREM), Coletivo Resistência de Minas Gerais (CORES),  Comitê Indigena Mineiro, reunidas em um espaço de fortalecimento das lutas, de troca de saberes, de formação política e de reafirmação de seus modos de vida, sob o tema “Memória ancestral e o fazer político: mulheres indígenas e suas lutas em defesa da vida e proteção dos territórios“, tornamos pública nossa palavra coletiva. 

Viemos de diferentes territórios, carregando conosco a força de nossos ancestrais, nossos cantos, nossas línguas, nossos conhecimentos, nossas sementes e nossas histórias de resistência. Reunimo-nos para fortalecer nossa caminhada, compartilhar experiências, reafirmar nossa identidade e construir estratégias coletivas para enfrentar os desafios que ameaçam nossos povos e nossos modos de vida.

Somos guardiãs da memória, da espiritualidade, das águas, das florestas, das sementes e dos territórios. Nossa luta é pela continuidade da vida. Defender os territórios indígenas é defender o equilíbrio da natureza, a diversidade dos povos e o futuro das próximas gerações.

Denunciamos o avanço das explorações dos nossos territórios, a mineração, o desmatamento, o racismo, a violência contra as mulheres indígenas, a criminalização de nossas lideranças e das políticas que ameaçam nossos direitos constitucionais. A expansão da mineração, especialmente a exploração de terras raras e de outros bens minerais, aprofunda conflitos, contamina rios, destrói lugares sagrados e coloca em risco a sobrevivência física, cultural e espiritual de nossos povos e a biodiversidade.

Reafirmamos que a agroecologia, a soberania alimentar, o cuidado com as sementes tradicionais, os quintais produtivos e o fortalecimento das práticas comunitárias são caminhos fundamentais para o Bem Viver. Nossa relação com a terra não é de exploração, mas de pertencimento, reciprocidade e cuidado.

Reconhecemos a espiritualidade como fundamento de nossa existência e de nossa resistência. Nossos rituais, rezas, cantos, plantas medicinais e práticas tradicionais de cura são patrimônios vivos que precisam ser respeitados, valorizados e protegidos.

Defendemos a ampliação da participação das mulheres indígenas em todos os espaços de decisão política, em nossas comunidades, nas organizações indígenas, nos conselhos, nas instituições públicas e nos processos de construção das políticas que dizem respeito aos nossos povos. Não aceitamos que nossas vozes sejam silenciadas. Nossa participação é um direito e uma necessidade para fortalecer nossos territórios.

Ao final deste encontro, assumimos coletivamente os seguintes compromissos:

  • Fortalecer a articulação entre mulheres indígenas de diferentes povos e territórios;
  • Incentivar a formação política das mulheres indígenas e sua participação nos espaços de decisão;
  • Defender os territórios contra todas as formas de invasão, exploração e violência;
  • Fortalecer a agroecologia, a soberania alimentar e as economias sustentáveis dos povos indígenas;
  • Preservar e transmitir os saberes ancestrais, a espiritualidade e as práticas tradicionais de cura;
  • Ampliar a comunicação indígena como ferramenta de mobilização, denúncia e afirmação cultural;
  • Construir alianças com movimentos sociais, organizações e instituições comprometidas com os direitos dos povos indígenas e a justiça socioambiental.

Mediante de tudo aqui descrito, não aceitaremos que a omissão, a negligência ou a violência continuem produzindo mortes em nossos territórios. Nenhum sangue indígena deve ser derramado. Cada vida indígena importa. Cada liderança, cada mulher, cada criança, cada ancião, jovem têm o direito de viver com dignidade, segurança e paz em seus territórios ancestrais. Seguiremos firmes, organizadas e unidas na defesa da vida, dos territórios e da memória de nossos povos. Nossa luta é pela continuidade da vida, pela proteção da natureza e pelo futuro das próximas gerações. Enquanto houver mulheres indígenas resistindo, haverá esperança, território vivo e ancestralidade fortalecida.