
A publicação busca atingir o público jovem das terras indígenas, na medida em que eles mesmos ajudaram a compor a cartilha. Imagem: Reprodução
Em meio ao avanço das mudanças climáticas antrópicas, à escalada da desigualdade e ao esgotamento do modelo capitalista de produção, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) lança uma ferramenta pedagógica, em história em quadrinhos, que pode ser utilizada como um manifesto e um compêndio de saberes tradicionais: a cartilha “Os Povos Indígenas e o Futuro”.
Desenvolvida com financiamento da Kindermissionswerk (obra missionária alemã), a publicação foi concebida a partir de oficinas de formação com crianças, jovens e adolescentes indígenas de terras indígenas localizadas no Nordeste brasileiro. Seu objetivo é servir como material de apoio para futuras atividades educativas nos territórios, mas seu alcance é mais amplo.
A cartilha mescla textos, ilustrações e sequências em quadrinhos protagonizadas por personagens como Manu e Dentinho. A narrativa gráfica é usada para mostrar, de forma didática e emocional, como as mudanças climáticas afetam os povos indígenas, incluindo aqueles que vivem em periferias urbanas ao lado das populações mais pobres.
Em uma das cenas, Dentinho perde sua casa em uma enchente. Manu explica que o que antes era “algo natural” agora se tornou extremo por causa da queima de combustíveis fósseis, do acúmulo de gases-estufa e de um estilo de vida consumista concentrado nas mãos de poucos.“O 1% mais rico do planeta emite a mesma quantidade de gases que os 66% mais pobres”, Manu explica.

A colonialidade é uma das maneiras pela qual o capitalismo mantém a sociabilidade dividida em classes sociais no sul global. Imagem: Reprodução
Colonialismo, capitalismo e colonialidade do poder
Em capítulos como “A invasão da Abya Yala” (expressão usada por povos originários para se referir à América Latina) e “Consequências atuais do colonialismo-capitalismo”, os autores, Otto Cabral Mendes Filho e Gerson de Souza Arrais Neto, conectam a violência da colonização europeia às estruturas atuais de poder.
O conceito de colonialidade do poder é apresentado: mesmo após as independências, as elites locais mantiveram a concentração de terras, a exploração do trabalho e o racismo como pilares de dominação. Favelas, presídios, jornadas exaustivas e baixos salários são retratados como heranças desse sistema, agora potencializadas pelo neoliberalismo.
Longe de um discurso vitimista, a publicação destaca a resistência ativa dos povos indígenas por mais de 500 anos. São mencionados nomes como Túpac Katari e Dolores Cacuango, além de conquistas recentes;os artigos 231 e 232 da Constituição de 1988 e a derrubada parcial da tese do marco temporal pelo STF em 2025.
A cartilha também mostra a diversidade das lutas atuais: Acampamento Terra Livre (ATL), educação escolar indígena, mobilização de jovens e mulheres indígenas, e a dura realidade dos indígenas em contexto urbano, frequentemente acusados de “não serem mais indígenas”.

Manu e Dentinho: personagens refletem sobre a vida nas periferias urbanas sob os impactos das mudanças climáticas. Imagem: Reprodução
Natureza como mãe, não como mercadoria
Um dos eixos centrais da publicação é a cosmovisão indígena de relação com a natureza, onde cultura e natureza não se separam, ou seja, o que o capitalismo encara como mero recurso, os povos indígenas encaram como ser vivo, sagrado e habitado por seres materiais e não materiais. O povo Xukuru de Ororubá (PE) é citado como exemplo: seus rituais (Toré) acontecem em locais onde ancestrais e seres encantados estão espiritualmente presentes no bioma.
A cartilha critica soluções falsamente verdes, como o crédito de carbono, que só servem para manter a lógica do lucro intacta. E não poupa a COP 30 (realizada em Belém, em 2025): para os autores, o evento priorizou planos globais que ignoram saberes locais e não enfrentam o capitalismo.
Para quem busca uma abordagem conciliadora, em que é possível imaginar saídas (sobretudo dos povos indígenas) associadas ao capitalismo ou em uma versão mais moderada deste sistema, o tom será desconfortável
No capítulo final, “Comer é um ato político”, a cartilha defende que a produção de alimentos deve estar sob controle popular, não empresarial. Agricultores indígenas, assentados, pequenos agricultores, quilombolas, quebradeiras de coco e pescadores tradicionais são apresentados como guardiões de ciências práticas, com alta capacidade de produção de alimentos e bens em ritmo cadenciado ao da natureza.
Mas como superar os entraves que ainda não colocam esses povos como protagonistas? Mais do que uma obra educativa, a cartilha é um chamado à ação, e um lembrete de que, como diz a própria publicação: “sem um país livre do capitalismo e da opressão, os povos indígenas nunca terão paz”.
Para quem busca uma abordagem conciliadora, em que é possível imaginar saídas (sobretudo dos povos indígenas) associadas ao capitalismo ou em uma versão mais moderada deste sistema, o tom será desconfortável. A publicação busca tratar das causas da terra. Por outro lado, sua linguagem simples e ilustrada a torna acessível mesmo para adolescentes e jovens com pouca familiaridade com teoria social.
Organização: CIMI – Regional Nordeste
Formato: Cartilha ilustrada (40 páginas)
Público-alvo: Jovens, adolescentes e educadores indígenas e não indígenas