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Brasil em Disputa: crise climática, autoritarismo e direitos humanos na conjuntura contemporânea

Acampamento Terra Livre 2026: marcha "Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida". Foto: Hellen Loures | Cimi

Acampamento Terra Livre 2026: marcha “Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida”. Foto: Hellen Loures | Cimi

Por Ivan Cesar Cima e Roberto Liebgott, do Cimi Regional Sul

A conjuntura contemporânea é marcada pela convergência de múltiplas crises que atravessam as dimensões política, econômica, social, cultural, ambiental e tecnológica. Longe de constituírem fenômenos isolados, essas dinâmicas expressam a permanência de um modelo histórico de desenvolvimento assentado na exploração intensiva dos territórios, na concentração de riquezas e na subordinação dos direitos humanos aos interesses da acumulação econômica.

As desigualdades estruturais que acompanham a formação do Estado brasileiro encontram, no presente, novas formas de manifestação. O avanço de práticas autoritárias, a fragilização das instituições democráticas, a disseminação da desinformação, a intensificação da crise climática, a criminalização da pobreza, as violências de gênero e a intolerância às diferenças compõem um cenário de crescente vulnerabilização de povos indígenas, comunidades tradicionais, populações periféricas e demais grupos historicamente excluídos.

Essa realidade revela que a disputa em torno dos territórios, dos bens comuns e dos modos de vida transcende a esfera econômica e assume centralidade na agenda dos direitos humanos. Em última análise, trata-se de um embate entre projetos distintos de sociedade: de um lado, a lógica da mercantilização da natureza e da vida. De outro, a defesa da dignidade humana, da diversidade sociocultural e da sustentabilidade ecológica.

 

Marcos jurídicos de proteção

A Constituição Federal de 1988 estabeleceu importantes fundamentos para a proteção da dignidade humana, da diversidade cultural e do patrimônio ambiental brasileiro. O artigo 225 reconhece o direito de todos a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, impondo ao Estado e à coletividade o dever de protegê-lo para as presentes e futuras gerações.

Os artigos 231 e 232 asseguram aos povos indígenas o status de sujeitos capazes, bem como os direitos originários sobre as terras tradicionalmente ocupadas, reconhecendo suas organizações sociais, costumes, línguas, crenças e tradições, além de sua relação singular com os territórios.

No âmbito internacional, a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) estabelece o direito à consulta livre, prévia, informada e de boa-fé sempre que medidas administrativas ou legislativas possam afetar povos indígenas e comunidades tradicionais, assegurando-lhes a prerrogativa de participar das decisões relacionadas aos seus territórios e modos de vida.

Complementam esse sistema de proteção a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas e os diversos instrumentos internacionais de direitos humanos que afirmam a indivisibilidade entre justiça social, proteção ambiental, diversidade cultural e autodeterminação dos povos.

Esse conjunto normativo demonstra que o desenvolvimento econômico não pode ocorrer à custa da supressão de direitos fundamentais ou da destruição das bases ecológicas que sustentam a vida.

“A conjuntura contemporânea é marcada pela convergência de múltiplas crises que atravessam as dimensões política, econômica, social, cultural, ambiental e tecnológica”

Acampamento Terra Livre 2026: marcha "Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida". Foto: Hellen Loures | Cimi

Acampamento Terra Livre 2026: marcha “Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida”. Foto: Hellen Loures | Cimi

O modelo de desenvolvimento e a permanência da lógica colonial

A história brasileira foi construída sobre processos de ocupação territorial, exploração intensiva dos recursos naturais e concentração fundiária. Embora sob novas roupagens, essa racionalidade permanece presente no modelo econômico contemporâneo, caracterizado pela expansão da mineração em larga escala, do agronegócio extensivo e da apropriação privada dos bens comuns.

A flexibilização de normas ambientais, a redução dos mecanismos de fiscalização e a pressão sobre territórios indígenas e tradicionais ampliam conflitos e produzem deslocamentos forçados, contaminação de rios e solos, destruição de ecossistemas e perda acelerada da biodiversidade.

Esses processos afetam diretamente a efetividade dos direitos humanos, uma vez que território, cultura, alimentação, saúde, identidade e autonomia constituem dimensões inseparáveis da existência coletiva de inúmeros povos e comunidades.

A permanência dessa lógica evidencia que a colonialidade não pertence apenas ao passado histórico. Ela continua organizando relações de poder, definindo quais vidas são protegidas e quais podem ser sacrificadas em nome do progresso e do crescimento econômico.

 

A crise climática como crise de direitos humanos

A emergência climática constitui um dos maiores desafios do tempo presente. O aumento da frequência e da intensidade de secas, enchentes, queimadas e outros eventos extremos demonstra que as alterações ambientais já produzem impactos concretos sobre milhões de pessoas.

As consequências dessas transformações não afetam a sociedade de forma igualitária. Populações empobrecidas, povos indígenas, comunidades tradicionais e moradores das periferias urbanas experimentam de maneira mais intensa os efeitos da degradação ambiental, seja pela insegurança alimentar, pela perda dos meios de subsistência ou pelo agravamento das condições de saúde.

A crise climática não pode, portanto, ser compreendida apenas como uma questão ecológica. Trata-se de uma profunda crise de direitos humanos, diretamente relacionada ao modelo de desenvolvimento, às desigualdades sociais e à concentração do acesso aos recursos naturais.

Ao mesmo tempo, a crescente disputa internacional por minerais estratégicos, fontes energéticas e controle dos territórios tende a intensificar conflitos geopolíticos e guerras, revelando que a questão ambiental se tornou um dos principais eixos de reorganização do poder global.

“A emergência climática constitui um dos maiores desafios do tempo presente”

Acampamento Terra Livre 2026: marcha "Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida". Foto: Hellen Loures | Cimi

Acampamento Terra Livre 2026: marcha “Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida”. Foto: Hellen Loures | Cimi

Autoritarismo, intolerância e novas formas de controle social

O cenário contemporâneo também evidencia o fortalecimento de práticas autoritárias que buscam flexibilizar direitos e enfraquecer mecanismos democráticos de participação e controle social.

Observa-se a expansão de discursos de intolerância dirigidos contra a diversidade cultural, étnica, religiosa, política e de gênero, alimentando processos de exclusão e aprofundando preconceitos históricos. Nesse ambiente, ganham espaço pautas de caráter punitivista e conservador – como a redução da maioridade penal e o endurecimento das políticas de segurança pública -, frequentemente apresentadas como solução para problemas cuja origem reside nas desigualdades estruturais.

A criminalização da pobreza emerge como uma das expressões mais visíveis desse processo. Em vez de enfrentar as causas da exclusão social, amplia-se a vigilância, o encarceramento e a repressão sobre parcelas vulnerabilizadas da população.

Paralelamente, a banalização da verdade e a disseminação de desinformação comprometem o debate público, fragilizam a confiança nas instituições democráticas e reduzem a capacidade de construção coletiva de respostas para as crises contemporâneas.

Nesse contexto, diferentes estruturas de poder passam a disputar o controle das subjetividades e dos territórios. Parte do campo religioso é capturada por interesses econômicos e políticos, transformando a fé em instrumento de dominação e mercantilização. Em diversos espaços urbanos, organizações criminosas também ocupam vazios deixados pelo Estado, estabelecendo formas paralelas de regulação da vida cotidiana e de controle das populações.

 

Novas tecnologias, inteligência artificial e concentração de poder

A rápida expansão das plataformas digitais, dos sistemas de inteligência artificial e das novas tecnologias de processamento de dados inaugura profundas transformações nas relações econômicas, políticas, ambientais e culturais.

Embora representem importantes possibilidades de ampliação do conhecimento e da comunicação, essas ferramentas também se convertem em instrumentos de concentração de riqueza, vigilância e controle social.

A centralização de grandes volumes de dados nas mãos de poucas corporações globais fortalece novas formas de poder capazes de influenciar comportamentos, direcionar o consumo, modular preferências e interferir nos próprios processos democráticos.

Ao mesmo tempo, a circulação acelerada de conteúdos digitais amplia a disseminação de desinformação, discursos de ódio e campanhas de manipulação, aprofundando processos de polarização e esvaziando o espaço público.

O desafio contemporâneo não consiste apenas em regular tecnologias emergentes, mas em assegurar que seu desenvolvimento esteja subordinado aos princípios dos direitos humanos, da natureza, da transparência, da proteção de dados e da democracia.

“As múltiplas formas de violência que atravessam a sociedade brasileira possuem raízes estruturais”

IV Marcha das Mulheres Indígenas. Foto: Tiago Miotto | Cimi

IV Marcha das Mulheres Indígenas. Foto: Tiago Miotto | Cimi

Violências estruturais e aprofundamento das desigualdades

As múltiplas formas de violência que atravessam a sociedade brasileira possuem raízes estruturais e refletem a permanência de relações históricas de desigualdade e exclusão.

A violência contra as mulheres permanece como uma das mais graves violações de direitos humanos. Os elevados índices de feminicídio, violência doméstica e sexual revelam a persistência de estruturas patriarcais que naturalizam relações de dominação e subordinação.

Mulheres indígenas, negras, quilombolas, camponesas e moradoras das periferias urbanas experimentam formas ainda mais intensas de vulnerabilização, resultado da sobreposição entre desigualdades de gênero, raça, classe e território.

Outro aspecto que evidencia as contradições do atual modelo de desenvolvimento é a permanência do trabalho em condições análogas à escravidão. Apesar dos avanços institucionais, trabalhadores continuam sendo submetidos a jornadas exaustivas e condições degradantes, especialmente em atividades agrícolas e cadeias produtivas baseadas na intensa exploração manual, como colheitas sazonais e outras atividades rurais.

A persistência dessas violações demonstra que a precarização da vida e do trabalho permanece integrada as dinâmicas contemporâneas de acumulação econômica.

 

A disputa eleitoral no Brasil

No Brasil, a disputa eleitoral já começa a moldar o cenário político e a produzir um ambiente de profundas incertezas. A percepção de uma crescente ingerência externa nos assuntos nacionais – expressa nas tensões comerciais com os Estados Unidos, nas críticas a instrumentos como o Pix e no anúncio de novas tarifas – tendem a alimentar o debate público e a intensificar a polarização.

Nesse cenário, diferentes forças buscam transformar esses acontecimentos em capital político. O bolsonarismo procura mobilizar tais conflitos em benefício próprio, enquanto os setores democráticos e progressistas ressaltam a necessidade de defesa da soberania nacional e das instituições republicanas.

Ao mesmo tempo, é preciso olhar para além da disputa presidencial. As eleições para a Câmara dos Deputados e para o Senado Federal serão decisivas para o futuro do país, pois é no Parlamento que se definem grande parte das regras políticas, dos marcos legais e das condições de governabilidade. A experiência recente demonstrou que a captura dessas instituições por interesses econômicos e corporativos pode favorecer mecanismos de opacidade, a exemplo do orçamento secreto, além de ampliar práticas de corrupção e de abuso do poder econômico.

Mais do que a escolha de um governo, o processo eleitoral colocará em disputa os próprios rumos da democracia brasileira, da soberania nacional e da capacidade do Estado de responder aos desafios sociais, ambientais e econômicos do nosso tempo.

“A disputa eleitoral já começa a moldar o cenário político e a produzir um ambiente de profundas incertezas”

Manifestação contra a PEC da Blindagem e contra anistia. Foto: Tiago Miotto | Cimi

Manifestação contra a PEC da Blindagem e contra anistia. Foto: Tiago Miotto | Cimi

Resistências e alternativas

Apesar desse cenário, povos indígenas, comunidades tradicionais, movimentos sociais, organizações da sociedade civil e defensores de direitos humanos seguem desempenhando papel fundamental na proteção dos territórios, na denúncia de violações e na construção de alternativas fundadas na justiça socioambiental.

A defesa dos bens comuns, da democracia, da diversidade cultural e do equilíbrio ecológico representa não apenas uma reação às violações existentes, mas a afirmação de outros projetos de sociedade, orientados pela solidariedade, pela reciprocidade e pelo respeito à pluralidade dos modos de vida.

Essas experiências demonstram que a proteção dos direitos humanos depende do fortalecimento das organizações coletivas, da participação popular e do reconhecimento de que a diversidade cultural e ambiental constitui patrimônio essencial para a continuidade da vida.

 

Considerações finais

A conjuntura contemporânea revela que a crise climática, as disputas energéticas, a concentração tecnológica, a desinformação, a intolerância às diferenças, as violências de gênero, a criminalização da pobreza, a exploração extrema do trabalho e o avanço de práticas autoritárias não constituem fenômenos isolados. São manifestações interdependentes de um mesmo modelo de desenvolvimento que concentra poder e riqueza, mercantiliza a natureza e fragiliza a democracia.

O Brasil se encontra diante de uma disputa histórica entre a continuidade dessa lógica de exploração e a efetivação do projeto democrático e humanista inscrito na Constituição Federal de 1988 e nos instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos.

Nesse contexto, a defesa dos direitos humanos ultrapassa a dimensão normativa e assume um caráter ético, político e civilizatório. A construção de uma sociedade democrática exige o reconhecimento de que a diversidade dos povos, a integridade dos territórios, a igualdade de gênero, a justiça socioambiental e a proteção da vida constituem dimensões inseparáveis de um mesmo projeto de futuro.

 

Referências para diálogo teórico

Esta reflexão dialoga com contribuições do pensamento crítico contemporâneo, especialmente com as formulações de Aníbal Quijano sobre a colonialidade do poder; de Achille Mbembe acerca da necropolítica e das políticas da inimizade; de David Harvey sobre a acumulação por espoliação; de Naomi Klein sobre a crise climática e o capitalismo contemporâneo; de Milton Santos sobre as contradições da globalização; e de Ailton Krenak sobre as relações entre humanidade, território e natureza.