
Foto: Eduardo de Oliveira/Cimi Regional Mato Grosso
Durante quatro dias, jovens dos povos Karajá, Kanela, Krahô, Javaé, Xavante e Xerente estiveram reunidos no Centro Comunitário de São Félix do Araguaia (MT) para o 1º Encontro da Juventude Indígena do Araguaia. O tema escolhido revela a urgência do momento: a prevenção do suicídio. Organizado pela equipe do Araguaia do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Mato Grosso, o encontro reuniu cerca de 55 jovens do Araguaia mato-grossense e do Tocantins entre os dias 17 e 20 de março deste ano.
A escolha do tema não é casual. Segundo o relatório Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil, publicado anualmente pelo Cimi, foram registrados 208 suicídios de indígenas em 2024 — um crescimento em relação ao ano anterior, com 180 casos. Amazonas (75), Mato Grosso do Sul (42) e Roraima (26) concentraram os números mais elevados. Os mais afetados são os jovens: indígenas de até 19 anos responderam por 32% dos casos, e aqueles entre 20 e 29 anos, por 37%.
Os dados do Cimi encontram respaldo em outras pesquisas recentes. O 2º Informe Epidemiológico sobre Saúde da Juventude Brasileira, publicado pela Fiocruz em dezembro de 2025, aponta que a juventude indígena tem a maior taxa de suicídio do país, de 62,7 por 100 mil habitantes — mais que o dobro da taxa entre jovens em geral, que é de 31,2. Entre meninas indígenas de 15 a 19 anos, o índice chega a 46,2.

Foto: Eduardo de Oliveira/Cimi Regional Mato Grosso
A situação é especialmente grave no Mato Grosso do Sul. Segundo o Atlas da Violência divulgado em 2025 com dados de 2024, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o estado lidera o suicídio indígena no Brasil, com taxa de 151,8 mortes por 100 mil habitantes — quase 20 vezes acima da média brasileira. Pesquisadores apontam que a concentração de casos nessa região está diretamente ligada à histórica morosidade na demarcação de territórios, à violência crônica contra lideranças e à marginalização das comunidades. A não demarcação da terra não é a única razão, mas pode ser um dos determinantes sociais que impactam na saúde e na vulnerabilidade dos povos indígenas.
Os dados dialogam com um cenário ainda mais amplo. Considerado um problema de saúde pública no Brasil, segundo o Ministério da Saúde (2021), foram registradas 15.507 mortes por suicídio em 2021, o que representa uma média de 42 óbtos por dia. Em âmbito global, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 700 mil pessoas morrem por ano por suicídio. Entre os jovens de 15 a 29 anos, o suicídio é a quarta principal causa de morte.

Foto: Eduardo de Oliveira/Cimi Regional Mato Grosso
Foi nesse contexto que o encontro no Araguaia se tornou necessário. A formação foi estruturada em seis blocos temáticos interligados — Adolescência e Juventude; Ansiedade e Depressão; Vícios; Prevenção (dois blocos); e Missão — com espaço para reflexão em grupos e partilha em plenária. Os debates contaram com o apoio do psicólogo clínico Jonathan Igor, representante das Congregações Religiosas na Coordenação Nacional da Pastoral Juvenil (CNPJ). O profissional foi o assessor do evento.

Foto: Eduardo de Oliveira/Cimi Regional Mato Grosso
Os jovens indígenas foram motivados a refletir e discutir o tema em conjunto e, posteriormente, a partilhar suas percepções em plenária. Houve muitas trocas entre os grupos, diante das realidades vividas em seus territórios, especialmente em relação aos vícios e aos casos de suicídio, que vêm afetando principalmente o público juvenil.
As partilhas entre os jovens revelaram a dureza do que enfrentam em seus territórios. Depressão, uso abusivo de álcool e casos de suicídio foram relatados com franqueza. Alguns participantes tiveram coragem de compartilhar experiências pessoais — tentativas próprias ou de pessoas próximas. Tristeza profunda, isolamento e frases como “quero desaparecer” foram identificados como sinais de alerta que não podem ser ignorados.
“Esse encontro é importante para a formação dos jovens sobre a questão do suicídio. As informações colhidas serão levadas aos territórios para que os jovens nas aldeias possam compreender melhor a prevenção”, afirma Cohkru Krahô, jovem da aldeia Rio Vermelho, em Goiatins (TO), destacando a importância de o Cimi ampliar iniciativas como essa para outros territórios.
Lúcia Vânia Rê’utpori’ô, do povo Xavante, do território Marãiwatsédé, em Alto Boa Vista (MT), destacou a necessidade de levar o debate adiante: “É possível reconhecer essas situações no território; por isso, é importante levar o que foi discutido aqui para os jovens que permaneceram na aldeia.”

Foto: Eduardo de Oliveira/Cimi Regional Mato Grosso
Lucivanda Zârê (Xerente), da aldeia Funil, em Tocantínia (TO), e Kátinakaru (Karajá), da aldeia Fontoura, na Ilha do Bananal (TO), ressaltaram a importância da participação das mulheres nesse debate e da ampliação dessa discussão entre os jovens de suas comunidades.
Força coletiva
O peso do tema não excluiu momentos de animação durante o encontro, pelo contrário, a cultura é também uma forma de cuidado. Cantos, rituais e dinâmicas educativas protagonizados pelos próprios jovens marcaram os quatro dias.
Como resultado das atividades em grupo, os participantes elaboraram propostas concretas de ações voltadas à prevenção do suicídio em seus territórios. O encontro foi encerrado com apresentações e danças culturais — um gesto que, por si só, já é resposta: povos que cantam e dançam juntos estão, antes de tudo, afirmando que querem continuar existindo.