
Cacique Merong Kamakã. Foto: Rory Weslley
Unindo recuperação ambiental, fortalecimento comunitário e valorização dos saberes ancestrais, o povo Kamakã Mongoió realizou um mutirão de limpeza e plantio em seu território, na retomada do Vale do Córrego das Areias, em Brumadinho (MG), em comemoração ao Dia dos Povos Indígenas. A atividade, realizada em uma região profundamente marcada pelo rompimento da barragem da Vale, reafirmou o compromisso indígena com o cuidado da terra e a reconstrução da vida no território.
Em 25 de janeiro de 2019, a barragem B1, da Mina Córrego do Feijão, de propriedade da Vale, se rompeu. A lama matou 272 pessoas e atingiu toda a bacia do Rio Paraopeba. Pesquisas mostram índices elevadíssimos de metais como ferro, alumínio e manganês nas águas superficiais e subterrâneas da região até hoje. Para as comunidades indígenas, a Vale matou uma divindade — Txopai, o Rio. Para um crime dessa natureza, não há reparação possível.
O território onde o mutirão aconteceu chegou ao povo Kamakã Mongoió por retomada. Com o rompimento da barragem da Vale, o povo que até então vivia naquela região se espalhou pelas cidades da região metropolitana de Belo Horizonte, sem moradia, sem acesso às políticas públicas e sem perspectiva de retorno. Em outubro de 2021, liderados pelo cacique Merong, o povo Kamakã Mongoió retomou uma área no Córrego das Areias, em Brumadinho — vizinha ao Córrego do Feijão, onde a barragem havia se rompido. Já em posse das comunidades, essa área foi comprada pela mineradora que, ao transformá-las em áreas de compensação ambiental, impediu sua regularização como territórios indígenas e impetrou ação de reintegração de posse contra a ocupação feita pela comunidade.

Foto: Caio Silva/Cimi Regional Leste
E em março de 2024, o cacique Merong Kamakã Mongoió foi encontrado morto em sua casa no território naquela região marcada por denúncias de perseguições de policiais e de seguranças da mineradora, que ele próprio registrava nas redes sociais. Na época, a comunidade foi impedida de enterrar Merong, uma de suas principais lideranças, no território por eles reivindicado, terra que ele ajudou a retomar. Passados dois anos, as circunstâncias da morte ainda são contestadas e o caso continua sob investigação da Polícia Federal.
Em janeiro de 2025, ao completar seis anos do rompimento da barragem, e em reação às violações que vinha enfrentando, o povo Kamakã Mongoió lançou seu protocolo de consulta livre, prévia e informada — documento que estabelece como empresas e órgãos públicos devem se relacionar com o território antes de qualquer empreendimento. É a resposta indígena à lógica que gerou o desastre: enquanto a mineradora age sem consultar, os povos constroem instrumentos para serem ouvidos.
Em março deste ano, a disputa judicial teve um desfecho. A Justiça Federal em Minas Gerais homologou o acordo entre a Vale e a comunidade na ação de reintegração de posse aberta após a ocupação de 2021. Pelo termo firmado — construído com a participação da Funai, da Defensoria Pública da União, do Ministério Público Federal e da Advocacia-Geral da União —, a empresa se compromete a doar 20 hectares da área à União, para que a comunidade Kamakã Mongoió possa permanecer e ocupar o território.

Foto: Caio Silva/Cimi Regional Leste
Plantar nessa terra, portanto, não é gesto simbólico. O mutirão é a afirmação de permanência num chão que o capital tenta, sistematicamente, esvaziar.
O Dia de Resistência
O Dia de Resistência dos Povos Indígenas ganha uma dimensão ainda mais profunda quando deixa de ser apenas memória e se torna prática viva no território. Foi exatamente isso que se concretizou no mutirão de limpeza e plantio realizado no território do povo Kamakã Mongoió, em Brumadinho – um chão atravessado pela dor do rompimento da barragem, mas também marcado pela coragem de reerguer a vida a partir das próprias raízes.

Foto: Caio Silva/Cimi Regional Leste
Com o tema “Saberes ancestrais e sustentabilidade”, o mutirão não foi apenas uma atividade coletiva, mas um verdadeiro ritual de reconexão. Ali, cada gesto simples carregava um significado profundo: limpar a terra não era apenas retirar resíduos, mas abrir caminhos para que a vida pudesse respirar novamente; plantar mudas não era apenas um ato ecológico, mas um compromisso espiritual com o futuro, um gesto de fé na regeneração do território.
Em um espaço historicamente ferido pela exploração e pelo descaso, o cuidado com a natureza se revelou como um ato político e sagrado. Os povos indígenas, ao longo do tempo, têm sustentado uma relação com a terra baseada no respeito, na reciprocidade e na escuta. Essa relação se expressa no entendimento de que a natureza não é um recurso a ser explorado, mas um organismo vivo, do qual fazemos parte. No mutirão, esse princípio se materializou no cuidado com a biodiversidade, no respeito aos ciclos naturais e na valorização dos saberes transmitidos pelos ancestrais.
Esse modelo de relação com a terra tem resultados mensuráveis. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), obtidos a partir da análise das trajetórias de uso da terra entre 1985 e 2018, mostram que territórios indígenas demarcados têm taxas de desmatamento até dez vezes menores do que áreas não protegidas adjacentes — reforçando seu papel como barreiras contra o desmatamento e a urgência de políticas públicas de proteção a esses territórios. No caso de Minas Gerais, onde a pressão minerária é histórica e o passivo ambiental do rompimento de Brumadinho ainda não foi integralmente reparado, a área da retomada Kamakã Mongoió abriga ecossistema de rica biodiversidade e inúmeras nascentes. A presença indígena no território representa, portanto, também uma barreira concreta contra novos processos de degradação.
A terra de Brumadinho, marcada pela devastação, torna-se também símbolo de resistência e de reconstrução. O que antes foi cenário de morte e destruição, hoje se transforma, pouco a pouco, em espaço de esperança. E essa transformação não vem de grandes estruturas externas, mas da força coletiva, da união de mãos e da sabedoria ancestral que ensina a regenerar sem violentar, a cultivar sem destruir.

Foto: Caio Silva/Cimi Regional Leste
O território onde ocorreu a atividade está inserido em uma região que ainda convive com os impactos sociais, ambientais e humanos do rompimento da barragem. A Retomada Kamakã Mongoió é resistência em meio a um território minerado, atingido pelo maior desastre de trabalho do Brasil e um dos maiores crimes ambientais corporativos do mundo. E mesmo após este crime, ocorrido em janeiro de 2019, a empresa continua impondo a sua presença econômica e política na cidade, moldando o território segundo a lógica da extração – retirar, exportar, acumular.
Ressignificar a dor
A presença dos povos indígenas naquele chão ressignifica essa dor. Com seus rituais, seu cuidado e sua espiritualidade, o solo deixa de ser apenas espaço de morte e volta a ser território vivo. As vidas que ali foram perdidas não são esquecidas: são, de algum modo, semeadas na terra. E, na força simbólica e concreta do plantio, transformam-se em vida que renasce, em árvores que crescem, em futuro que insiste em brotar.

Foto: Caio Silva/Cimi Regional Leste
Os povos indígenas seguem sendo guardiões não apenas de seus territórios, mas de uma visão de mundo essencial para o equilíbrio do planeta. Mesmo diante de tantas forças contrárias — invasões, políticas de apagamento e interesses econômicos predatórios — os povos permanecem firmes, defendendo suas terras e reafirmando suas existências. No caso do povo Kamakã Mongoió, essa defesa se expressa também na reconstrução: plantar, cuidar, retomar e celebrar a vida são formas concretas de resistência.
O mutirão, portanto, vai além de uma ação pontual. Ele se torna um chamado coletivo à responsabilidade. Um convite a reaprender com os povos indígenas outras formas de viver e se relacionar com o mundo. Um lembrete de que sustentabilidade não é apenas um conceito técnico, mas um modo de vida que envolve respeito ao cosmo, equilíbrio nas relações e compromisso com as gerações futuras.
Ao participar de um momento como esse, somos provocados a refletir sobre nosso próprio lugar no mundo. Que tipo de relação estamos construindo com a terra? Estamos contribuindo para a vida ou para a destruição? Os saberes ancestrais, presentes naquele território, apontam caminhos possíveis: viver com mais simplicidade, mais consciência e mais conexão.

Foto: Caio Silva/Cimi Regional Leste
Em um cenário de avanço da mineração, das mudanças climáticas e da pressão sobre os territórios indígenas, experiências como a vivida em Brumadinho demonstram que a defesa da terra também passa pela recuperação dos espaços degradados e pelo fortalecimento dos conhecimentos tradicionais.
Assim, o mutirão no território Kamakã Mongoió se inscreve como um marco de resistência, mas também de esperança. Ele nos ensina que, mesmo diante da devastação, a vida pode ser replantada. Que, mesmo em meio à lama, é possível fazer brotar futuro. E que a luta dos povos indígenas não é apenas pela sua sobrevivência, mas pela continuidade da vida em sua plenitude.
Hoje, a área abriga diversas famílias que, com muito trabalho coletivo, transformaram um território minerado e abandonado em espaço de moradia e de cultivo — frutas, hortaliças, ervas, milho, feijão —, preservando ao mesmo tempo matas, animais e nascentes. Além da produção de alimentos, as famílias seguem construindo casas em mutirão e erguendo espaços pedagógicos dedicados à transmissão dos saberes ancestrais. A recente homologação do acordo que garante a permanência da comunidade na terra é um passo importante — mas a luta pela demarcação definitiva desse território continua sendo o horizonte que orienta cada plantio, cada casa erguida, cada criança que aprende ali quem é seu povo.

Foto: Caio Silva/Cimi Regional Leste
Defender os povos indígenas, seus territórios e seus modos de vida é, hoje, uma das tarefas mais urgentes para quem acredita em um mundo mais justo, equilibrado e sustentável. Porque onde há território indígena protegido, há floresta em pé, há água viva, há diversidade pulsando. E, sobretudo, há um horizonte possível de reconciliação entre humanidade e natureza — algo que o mutirão, com toda sua força simbólica e prática, nos fez experimentar de forma concreta e transformadora.