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Após mais de um século de silêncio, povo Nawa luta para impedir novo apagamento

Lucila Nawa, professora indígena há 26 anos e uma das principais lideranças do povo. Foto: Hellen Loures/Cimi

Por décadas, os mais velhos do povo Nawa evitaram dizer quem eram. Esconderam a língua, silenciaram os costumes e aprenderam a sobreviver sob outro nome. Chamados de “caboclos”, viveram entre seringueiros carregando a memória de uma violência que quase exterminou o povo que habitava a região do Juruá, no Acre. “Nossos antepassados não tinham coragem de se revelar indígenas, nem de dizer de que povo eram. Viviam como seringueiros porque tinham medo”, relata Lucila da Costa Moreira Nawa, professora indígena há 26 anos e uma das principais lideranças do povo.

A história que Lucila carrega foi transmitida pelos mais velhos e reconstruída ao longo dos anos por meio de pesquisas, encontros com outros povos e da própria retomada da identidade Nawa. Os massacres, segundo ela, começaram com a chegada dos coronéis e patrões seringalistas à região. “Quando começaram a chegar os coronéis, queriam que os indígenas trabalhassem para eles e até tentavam trocar mercadoria pelas mulheres indígenas. Mas o nosso povo nunca aceitou isso. Como não aceitavam obedecer nem entregar suas mulheres e filhas, começaram as perseguições e as matanças.”

A violência provocou sucessivas fugas. Expulsos de seus territórios, os Nawa migraram entre diferentes regiões da floresta tentando escapar dos ataques — de Cruzeiro do Sul para o Estirão dos Nawa, do Estirão para o Rio Azul, do Rio Azul até o Novo Recreio, na bacia do rio Moa. Quase todo o povo foi exterminado, mas restaram duas meninas: Mariruni, bisavó de Lucila, e Francisca Borges, conta a liderança Nawa. “Só ficaram duas crianças que conseguiram fugir para a mata. Depois foram encontradas pelos seringueiros e cresceram escondendo quem eram, sem revelar a origem indígena.” O medo atravessou gerações.

“Nossos antepassados não tinham coragem de se revelar indígenas, nem de dizer de que povo eram”

Um povo que reaprendeu a dizer o próprio nome

A retomada da identidade indígena começou apenas nas gerações mais recentes. Lucila conta que cresceu ouvindo fragmentos da história da família, mas foi durante os estudos na licenciatura indígena intercultural, a partir dos anos 2000, e no contato com outros povos que começou a compreender o passado da própria família. “Foi só na minha geração que a gente teve coragem de perguntar de onde vinham aqueles caboclos. Os mais velhos não queriam falar, mas nós insistimos com cuidado até eles contarem que éramos do povo Nawa e que tínhamos sido expulsos do nosso território.”

O nome em si carrega uma história. Os ancestrais do povo se chamavam Kapanawa. Mas “nawa”, na língua Pano, significa “outro” — era o termo que usavam para se referir ao que não era Kapanawa, ao estrangeiro, ao branco. Com o tempo, foram os próprios não indígenas que passaram a chamá-los de Nawa, por ouvirem cons-tantemente a palavra. A denominação foi incorporada e hoje é como o povo se identifica politicamente, reconhecendo tanto a transformação histórica quanto a origem ancestral compartilhada com seus parentes do Peru. Oficialmente, a Funai registra o povo como Nawa/Kapanawa.

Mesmo sem se nomear indígenas, os costumes nunca desapareceram de todo, lembra Lucila. “Nosso povo continuava vivendo como indígena, falando palavras da língua sem perceber, colocando nomes indígenas nas crianças, mantendo nossos costumes e nosso jeito de viver.” O Cimi teve papel decisivo nesse processo de reconhecimento. Em 1999, missionários do organismo chegaram ao rio Moa e foram os primeiros a registrar e comunicar à Funai a existência de um povo que se autodenominava Nawa. “O primeiro contato nosso foi o Cimi. Eles não mandavam ninguém fazer nada — só apoiavam. A gente pedia apoio para aquilo que queria fazer e eles sempre apoiaram. E estamos aqui com a nossa própria voz”.

Hoje, o povo Nawa reúne 86 famílias e cerca de 526 pessoas reconhecidas oficialmente como indígenas — e aguarda a demarcação do território há mais de duas décadas.

Lucila em ação dentro do território Nawa. Foto: Lucila Nawa

A terra sobreposta e a luta que não termina

A principal reivindicação do povo Nawa é a demarcação da terra tradicional na bacia do rio Moa, nos municípios de Mâncio Lima e Rodrigues Alves, região que faz fronteira com o Peru. O problema é que, em 1989, o governo federal criou o Parque Nacional da Serra do Divisor sobre esse mesmo território — sem consulta às comunidades que ali viviam. Com 843 mil hectares, o parque impôs restrições severas às atividades de subsistência dos Nawa e colocou as famílias sob risco constante de reassentamento forçado. Por décadas, o ICMBio, órgão administrador do parque, sequer reconheceu os Nawa como indígenas — chegando a aplicar, em um caso, multa superior a R$ 300 mil para impedir que as famílias construíssem casas e roçados. O quadro só começou a mudar em 2024.

Em novembro de 2024, Nawa e ICMBio assinaram um Termo de Compromisso, homologado pela Justiça Federal, que reconhece a ocupação tradicional do povo e estabelece acordos de convivência dentro do parque. Foi um avanço significativo depois de décadas de conflito. Mas as limitações à autonomia do povo sobre seu próprio território permanecem.

O processo de demarcação, iniciado formalmente em 2003, deu um passo concreto somente em fevereiro de 2026, quando a Funai publicou o Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID) da Terra Indígena Nawa — após 23 anos de espera. O documento delimita 65.159 hectares e reconhece oficialmente a ocupação tradicional do povo Nawa/Kapanawa. A presidenta da Funai, Joenia Wapichana, assinou o despacho com a presença virtual de lideranças Nawa. “São mais de 20 anos para esse reconhecimento. É uma luta centenária do nosso povo e nunca baixamos a cabeça. Hoje ficamos alegres porque saiu o nosso primeiro relatório assinado. Agora é dar continuidade à nossa luta”, celebrou Lucila.

“Mulheres, homens, idosos e crianças fizemos a demarcação por conta própria”

Mas comemorar com cautela é a postura de quem foi enganado antes. “Foram feitos uns três relatórios e nenhum foi publicado. Quando a gente pensava que tinha avançado um passo, descobria que nada tinha acontecido.” Agora, o processo precisa ser reconhecido pelo Ministério da Justiça e depois pela presidência da República — etapas que podem levar anos e enfrentar contestações judiciais de proprietários rurais, o que historicamente paralisa demarcações por longos períodos.

Diante da morosidade do Estado, os próprios Nawa anteciparam parte do trabalho. Realizaram sua autodemarcação. As comunidades mapearam e demarcaram fisicamente o próprio território sem esperar pelo governo. “Mulheres, homens, idosos e crianças fizemos a demarcação por conta própria, porque sabemos onde começa nossa terra, onde buscar nosso alimento e nossa fibra”, conta Lucila ao relatar que as mulheres tiveram papel central nessa mobilização. “As mulheres sabem o que é não ter o que dar de comer pra um filho, uma água boa de beber. Os homens estiveram ao nosso lado, mas as mulheres, mesmo muitas vezes caladas, seguiram a luta.”

Entre o parque e a ameaça da estrada

A ausência de demarcação deixa o território Nawa exposto a pressões que vão além dos conflitos fundiários. A região de fronteira entre Brasil e Peru enfrenta avanço de extração ilegal de madeira, ocupações irregulares e rotas ligadas ao narcotráfico — tudo potencializado pela baixa presença do Estado. E paira sobre a região uma ameaça que mobiliza organizações indígenas e ambientais há anos: a proposta de construção de uma estrada ligando Cruzeiro do Sul, no Acre, à cidade peruana de Pucallpa.

O traçado previsto cortaria diretamente o Parque Nacional da Serra do Divisor e afetaria as Terras Indígenas Nawa, Nukini, Poyanawa e outras, além de ameaçar povos isolados do lado peruano. A Justiça Federal já suspendeu o projeto em 2023, determinando que não haja licenciamento sem consulta prévia aos povos indígenas afetados e sem estudo de impacto adequado. O governo Lula não incluiu a obra em seu planejamento federal. Mas o projeto não foi definitivamente arquivado, e interesses econômicos e políticos regionais mantêm a pressão por sua retomada.
Para os Nawa, que ainda não têm a terra demarcada, a ameaça é concreta: sem o reconhecimento formal do território, qualquer avanço de obras ou concessões sobre a área encontra menos barreiras legais para ser contes-tado.

Lucila, em entrevista ao Porantim, localiza seu território no mapa de Terras Indígenas do Ministério da Justiça. Foto: Hellen Loures/Cimi

“Nós somos os verdadeiros guardiões da floresta”

O território Nawa abriga não apenas o povo — abriga também povos indígenas isolados, cujos rastros os Nawa encontram periodicamente durante o monitoramento da área. São provavelmente parentes dos Isconahua, povo isolado que possui reserva reconhecida do lado peruano da fronteira. Os Nawa se reconhecem como guardiões desse território mais amplo e realizam fiscalização com uma guarda improvisada, monitoram animais, cuidam das águas e trabalham com a juventude para manter o vínculo com a floresta.

Essa proteção, porém, tem se tornado cada vez mais difícil. As mudanças climáticas chegaram ao interior da floresta: a temperatura das águas dos igarapés subiu, incêndios que destroem roçados de macaxeira e plantas medicinais tornaram-se frequentes, e cheias repentinas arrastam casas e plantações.

Para Lucila, a equação é direta: sem território, não há como proteger a floresta, e sem floresta, não há saúde. “Nós somos os verdadeiros guardiões da floresta. Nós cuidamos da mata, protegemos os rios e percebemos as mudanças do clima. O nosso ar e a nossa floresta não servem só para nós indígenas. Servem para o mundo inteiro. Enquanto muita gente destrói e polui, somos nós que continuamos protegendo o que ainda resta.” E resume a contradição que atravessa a política ambiental brasileira: “Nós conservamos para esse pessoal poluir. Não é justo não demarcarem a nossa terra, sendo que nós é quem cuida e faz a fiscalização.”

“É como reconstruir uma parte da nossa história que tentaram apagar”

Parentes reencontrados após 103 anos

Durante as pesquisas sobre a história do povo, os Nawa descobriram a existência de parentes no Peru: os Ka-panawa, povo da mesma origem ancestral e da mesma família linguística Pano, que habita as margens dos rios Alto Tapiche e Buncuya, no departamento de Loreto. Os dois grupos perderam o contato ao longo do período colonial, marcado pelos massacres do ciclo da borracha, e não se comunicaram por mais de um século.

Em 18 de setembro de 2025, aconteceu o reencontro. Uma delegação Nawa composta pelo o cacique Railson Nawa, por Lucila, pelo agente de monitoramento Virlandio Nawa e ainda pelo servidor da Funai Ykaruni Nawa viajou cinco dias por terra e água para chegar à comunidade Kapanawa de Limoncocha, às margens do rio Tapiche, no nordeste do Peru. “Fomos reavivar nossas origens. Eu me senti em casa quando eu cheguei lá. Nos abraçamos como uma família que ficou afastada por 100 anos”, contou a liderança.

O encontro resultou na “Carta de Limoncocha”, documento coletivo que afirma a identidade compartilhada dos dois povos e a necessidade de intercâmbio contínuo, fortalecimento cultural e linguístico e troca de informações sobre os territórios na fronteira. Os Kapanawa do Peru conservaram a língua materna — hoje classificada como seriamente ameaçada, com pouco mais de uma centena de falantes nativos. Os Nawa brasileiros estão agora em processo de reaprendizado, estudando a língua com os parentes por meio de encontros online. “É como reconstruir uma parte da nossa história que tentaram apagar”, disse Lucila.

Lucila durante monitoramento de fiscalização do território Nawa, realizado por toda a comunidade: homens, mulheres e crianças. Foto: Lucila Nawa

Da floresta à ONU: “Sem terra, não temos saúde”

Em abril de 2026, Lucila viajou 5.700 km do Acre até Nova York para participar da 25ª Sessão do Fórum Permanente da ONU sobre Questões Indígenas, realizada de 20 de abril a 1º de maio com o tema “Garantir a saúde dos povos indígenas, inclusive em contextos de conflito”. A viagem foi feita com apoio do Cimi e da Repam. “Viajei três dias para chegar aqui. Fora da Terra Indígena, não vi um pedaço de floresta em pé. Para os povos indígenas, viver sem floresta é viver sem saúde, principalmente para as mulheres indígenas”, declarou Lucila no segundo dia de atividades do Fórum.

Na ONU, Lucila levou a denúncia sobre a demora na demarcação do território Nawa e um apelo pelas mudanças climáticas que devastam a floresta sem que os povos que a protegem sejam responsabilizados ou indenizados por isso. “Vamos pedir que os territórios sejam demarcados o mais breve possível, tanto do povo Nawa como de outros povos no Acre e no Brasil. Nós indígenas não lutamos só pelo nosso povo. Lutamos em favor de todos.”

A viagem também carrega o peso de uma espera que já consumiu gerações. “O meu pai, minha mãe e meus avós morreram sem ver nosso território reconhecido. Hoje eu já sou uma das mais velhas do meu povo e ainda continuo esperando esse momento.” Lucila tem 55 anos. Começou a trabalhar como professora quando tinha a quarta série — a mais escolarizada da comunidade à época. Viu o povo crescer de uma história de quase extinção para 526 pessoas reconhecidas. E não pretende parar.

“Mesmo que eu vá para outro mundo, eu não morro. Eu vou ser semeada, vou nascer, vou brotar. E o meu povo vai ficar ali com aquela árvore que plantamos. Isso é uma ciência. Por isso temos tanta resistência.” E encerra com o que é, ao mesmo tempo, memória e recado: “Já tentaram acabar com nosso povo uma vez. Jamais vamos deixar isso acontecer novamente.”