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A crise climática é uma realidade que afeta de forma desigual diferentes povos e territórios. Enquanto eventos extremos se intensificam, governos e grandes empresas apresentam soluções que prometem reduzir impactos ambientais sem alterar profundamente o modelo econômico responsável pela degradação do planeta. Entre essas soluções está o mercado de carbono, um mecanismo cada vez mais presente em políticas públicas, acordos internacionais e iniciativas privadas. Entender como esse sistema funciona e quais são seus efeitos concretos é fundamental, especialmente para os povos indígenas.
É nesse sentido que a cartilha em quadrinhos Mercado de carbono e territórios indígenas: não nos enganam com falsas soluções apresenta, de forma didática e crítica, os principais elementos desse mecanismo e seus impactos sobre os territórios indígenas, a partir de situações concretas inspiradas em experiências recorrentes vividas nos territórios. A cartilha foi realizada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e idealizada pelos regionais do Cimi localizados em regiões diretamente impactadas pelo projeto Amacro: Acre, Rondônia, Mato Grosso e Norte I (Amazonas).
“A cartilha se destina, especialmente, às comunidades indígenas para seu fortalecimento na resistência e na luta em defesa de seus territórios e do direito à consulta livre, prévia e informada, conforme a determinação de cada povo”, destaca o texto de apresentação da publicação.
Ao optar pela linguagem da história em quadrinhos, com narrativa sequencial e articulação direta entre texto e imagem, o material adota uma forma de comunicação acessível e potente, que dialoga com diferentes públicos sem abrir mão da complexidade do tema. A escolha por um formato lúdico e pedagógico amplia o alcance do debate, facilita a circulação da informação nos territórios e contribui para a formação política de comunidades, lideranças e aliados.
Compreender como o mercado de carbono opera — e quais interesses sustenta — é condição essencial para que povos indígenas possam identificar riscos, questionar propostas apresentadas como soluções ambientais e exercer, de forma consciente, o direito de decidir sobre seus territórios.
Ao longo da narrativa, a cartilha reafirma que a proteção das florestas está indissociavelmente ligada à garantia dos territórios indígenas. Defender a terra é defender o clima, não como ativo financeiro negociável, mas como direito coletivo e condição para a continuidade da vida.
“A cartilha se destina, especialmente, às comunidades indígenas para seu fortalecimento na resistência e na luta em defesa de seus territórios”

Crise climática vira oportunidade de lucro
A cartilha parte de um diagnóstico direto e compartilhado por povos indígenas em diferentes regiões do país: “as mudanças climáticas estão preocupando as pessoas de todo o mundo”, enquanto “quem detém os poderes econômicos e políticos está mais preocupado com seus lucros”. O aumento da temperatura global, os desastres ambientais e a intensificação de eventos extremos são apresentados não como fatalidades naturais, mas como consequências de um modelo econômico que segue operando mesmo diante do colapso ambiental.
Desde 1995, chefes de Estado se reúnem nas Conferências das Partes sobre o Clima (COPs). Esses encontros são apresentados oficialmente como espaços de negociação para redução das emissões de gases de efeito estufa. A cartilha, no entanto, oferece outra leitura: as COPs se transformaram em arenas de acordos entre governos e grandes corporações. “Nelas acontecem negociações climáticas que, na verdade, são acordos entre governos e grandes corporações empresariais”, registra o texto, acrescentando que “esses acordos nunca foram cumpridos”.
É nesse contexto que surge o mercado de carbono, descrito na cartilha como “uma suposta solução para o problema das mudanças climáticas”. O material explica, de forma direta, que esse mecanismo não enfrenta a raiz do problema. “Na prática, ele funciona como um mecanismo que permite que países e empresas poluidoras continuem lucrando sem reduzir suas emissões”.
O mercado de carbono se sustenta na lógica da compensação da poluição. Empresas, países ou empreendimentos que emitem gases de efeito estufa continuam suas atividades desde que adquiram créditos gerados por projetos que prometem evitar emissões ou capturar carbono em outros territórios.
A cartilha mostra que, na prática, esse sistema não elimina a poluição. Ele permite que grandes emissores mantenham seus padrões de produção e consumo, transferindo a responsabilidade ambiental para outros lugares. A crise climática, assim, não é enfrentada em sua origem, mas administrada por meio de transações financeiras.
“A cartilha apresenta situações recorrentes em que projetos de carbono são levados aos territórios com promessas de proteção ambiental”
Territórios indígenas na linha de frente
“Na mira do mercado de carbono estão os territórios dos povos indígenas e populações tradicionais que sempre cuidaram da natureza e toda sua biodiversidade”, aponta a cartilha. O material descreve a chegada desses projetos às aldeias como um processo de assédio sistemático. “Chegam nas aldeias assediando com falsas promessas, projetos de dinheiro fácil e melhoria rápida da qualidade de vida”.
As consequências, no entanto, aparecem rapidamente. “As comunidades ficam com restrições ao usufruto exclusivo do território e perda dos seus modos de vida”, denuncia a cartilha. O território, antes espaço de autonomia, passa a ser regulado por contratos, metas e monitoramentos externos. Ao aderirem a projetos desse tipo, comunidades podem perder o controle sobre decisões fundamentais relacionadas ao território.
Esse processo fragiliza a autodeterminação dos povos, direito garantido constitucionalmente. Decisões coletivas deixam de ser guiadas pelas necessidades da comunidade e passam a responder a interesses do mercado.
A cartilha apresenta situações recorrentes em que projetos de carbono são levados aos territórios com promessas de proteção ambiental, geração de renda e desenvolvimento sustentável. O discurso costuma destacar benefícios econômicos e reconhecimento internacional, mas silencia sobre compromissos de longo prazo e impactos concretos no cotidiano das comunidades. Contratos extensos, escritos em linguagem técnica e jurídica, passam a regular o uso do território por décadas. Muitas vezes, não há informação suficiente, tempo adequado ou condições reais para que as comunidades compreendam plenamente o que está sendo proposto. A decisão, que deveria ser coletiva e consciente, ocorre sob forte assimetria de poder.
Ao abordar os efeitos desses projetos, a cartilha evidencia que a preservação exigida pelo mercado de carbono frequentemente se traduz em restrições severas. Em nome da manutenção do chamado estoque de carbono, práticas tradicionais podem ser limitadas ou proibidas. Atividades como abrir roça, caçar, pescar ou circular livremente passam a ser monitoradas. O território, antes espaço de autonomia, transforma-se em área vigiada, submetida a regras definidas por empresas, consultorias e certificadoras. A proteção ambiental deixa de ser construída a partir dos saberes indígenas e passa a ser imposta por parâmetros externos.
“Enquanto grandes empresas seguem emitindo gases de efeito estufa, povos indígenas assumem os riscos associados aos projetos de compensação”
Quando a floresta é vista como ativo financeiro
Um dos eixos centrais da cartilha é a mercantilização da natureza. No mercado de carbono, florestas deixam de ser reconhecidas como territórios de vida e passam a ser tratadas como estoques de carbono. Árvores, solos e rios são reduzidos a números, cálculos e certificações.
Essa lógica ignora que, para os povos indígenas, o território não é um recurso econômico isolado, mas um espaço coletivo que reúne história, espiritualidade, trabalho, memória e futuro. Ao transformar a floresta em ativo financeiro, o mercado de carbono rompe essa relação e submete o território a interesses externos.
Outro ponto enfatizado pela cartilha é o desequilíbrio de responsabilidades. Enquanto grandes empresas e países poluidores seguem emitindo gases de efeito estufa, povos indígenas assumem os riscos associados aos projetos de compensação. A poluição permanece concentrada nos grandes centros industriais, mas seus efeitos são deslocados para os territórios que historicamente menos contribuíram para o problema. “Os grandes empresários que compram créditos de carbono não param de poluir onde suas indústrias estão instaladas”, afirma a cartilha, acrescentando que fazendeiros do agronegócio “podem continuar desmatando onde querem colocar suas grandes plantações e criações de gado”.
Essa lógica aprofunda a injustiça climática e reforça desigualdades já existentes. O mercado de carbono permite que o modelo econômico responsável pela crise siga intacto, ao mesmo tempo em que transforma territórios indígenas em moeda de troca.
“Trata-se de decidir quem paga o custo da crise climática, quem continua lucrando e quem perde território”
Organização, direitos e resistência
Diante das violações, a cartilha aponta caminhos de resistência. O material destaca a importância do direito à consulta livre, prévia e informada, previsto na Convenção 169 da OIT, além da organização interna, da assessoria técnica e jurídica e da atuação do Ministério Público Federal.
O consentimento livre, prévio e informado aparece como elemento central ao longo da narrativa. A cartilha evidencia que esse direito, embora reconhecido, é frequentemente tratado como etapa burocrática. Informações incompletas, linguagem inacessível e pressões indiretas comprometem a possibilidade de uma decisão verdadeiramente livre. Sem consentimento real, projetos apresentados como soluções ambientais reproduzem práticas históricas de violação de direitos, agora justificadas pelo discurso da sustentabilidade.
A mensagem final é política e clara. “Nem crédito de carbono, nem Amacro. Não nos arrancarão daqui.” E conclui: “Temos o direito de dizer não e diremos quantas vezes for preciso”.
Ao longo de suas páginas, a cartilha Mercado de carbono e territórios indígenas: não nos enganam com falsas soluções deixa evidente que o debate sobre o mercado de carbono não é técnico, mas político. Trata-se de decidir quem paga o custo da crise climática, quem continua lucrando e quem perde território, autonomia e modos de vida. Defender os territórios indígenas é enfrentar as falsas soluções climáticas e afirmar que a floresta não está à venda.