
Fonte: David Kaique
A presença e a força das Línguas Indígenas de Sinais (LIS) no Brasil ganham reconhecimento oficial e visibilidade nacional. Em municípios de diferentes regiões, novas leis afirmam essas línguas como cooficiais, enquanto pesquisadores e lideranças indígenas articulam um movimento crescente para garantir direitos linguísticos às pessoas surdas nos territórios. O surdo, como pertencente a um povo que tem uma cultura, tem uma identidade e essa identidade, no caso dos indígenas surdos, se consolida a partir das Línguas Indígenas de Sinais.
De acordo com o IBGE de 2022, vivem no Brasil mais de 391 povos/etnias, falantes de 295 línguas diferentes, orais e escritas. Essas culturas e línguas são frutos da herança de gerações anteriores, mas estão sempre em eterna construção, reelaboração, criação e desenvolvimento. É o caso das Línguas Indígenas de Sinais, que, hoje, já são 35 identificadas, cada uma carregando marcas culturais próprias e reafirmando a identidade dos povos que as utilizam.
Para o movimento indígena, o lugar de fala é da coletividade, ou seja, indígenas ouvintes e indígenas surdos são protagonistas no uso e na difusão das Línguas Indígenas de Sinais e na luta pelos direitos educacionais, linguísticos e identitários dos indígenas surdos. Propomos as Línguas Indígenas de Sinais como línguas brasileiras que abrange o conjunto das variedades das Línguas Indígenas de Sinais usadas pelos diversos povos indígenas do Brasil.
“A cooficialização é uma forma de valorizar a diversidade cultural e linguística e garantir direitos linguísticos para as comunidades”

Registro da Oficina “Línguas Indígenas de Sinais – LIS” no II Encontro da Década Internacional das Lín-guas Indígenas no Brasil. Fonte: acervo do GT LIS
Avanços
A Língua Indígena de Sinais abrange as especificidades utilizadas pelos diversos povos indígenas e ganham forças com a promulgação de leis locais que garantem a cooficialização de uma língua – processo de atribuição de status de língua oficial a um idioma além do idioma já oficial em um determinado território. No Brasil, esse processo ocorre principalmente em nível municipal e pode garantir que línguas indígenas e outras línguas sejam reconhecidas, promovidas e usadas em espaços públicos. A cooficialização é uma forma de valorizar a diversidade cultural e linguística e garantir direitos linguísticos para as comunidades.
Em 2023, a Lei Municipal nº 1538, cooficializou no minicípio de Miranda, no Mato Grosso do Sul, as línguas Terena, Kinikinau e a Língua Indígena Terena de Sinais (LITS). Em 2025, no município de Santa Cruz Cabrália, no Extremo Sul da Bahia, a Lei Nº. 776 cooficializa a Língua Indígena Patxôhã e a Língua Indígena Pataxó de Sinais (LIPS).
No município de Rio Tinto, na Paraíba, o movimento indígena deu início ao processo de cooficialização da Língua Indígena Potiguara de Sinais. Caciques, professores e demais lideranças estão produzindo o Projeto de Lei juntamente com o vereador indígena da região para apresentação na Câmara Municipal de Vereadores.
“Foi em 2021 que o Brasil deu mais um passo significativo ao instituir Grupos de Trabalho (GTs) como parte da agenda da UNESCO para a Década internacional das línguas indígenas”

Fonte: David Kaique
Grupo de trabalho
Em 2010, o decreto n° 7.387, instituiu o inventário nacional da diversidade linguística (INDL), um instrumento fundamental para a identificação, documentação e valorização das línguas que possuem relevância para a identidade e memória dos grupos formadores da sociedade brasileira. Dentro desse contexto, as línguas indígenas, tanto orais quanto sinalizadas, foram incluídas como parte desse patrimônio imaterial. Mas foi em 2021 que o Brasil deu mais um passo significativo ao instituir Grupos de Trabalho (GTs) como parte da agenda da UNESCO para a Década internacional das línguas indígenas. Esses GTs foram criados com o objetivo de formular diretrizes e executar ações de promoção a preservação, vitalização, manutenção e revitalização das línguas indígenas do Brasil, com atenção especial às Línguas Indígenas de Sinais, uma parte vital da diversidade linguística dos povos indígenas.
O grupo é composto por indígenas ouvintes e indígenas surdos, parceiros e instituições, com o objetivo de reconhecer, valorizar e oficializar as Línguas Indígenas de Sinais como línguas brasileiras, usadas pelos indígenas surdos nas comunidades indígenas no Brasil, em especial, na garantia de direitos dos indígenas surdos no território brasileiro.

Fonte: David Kaique
As 35 LIS do Brasil:
1. Língua Indígena Akwe Xerente de Sinais
2. Língua Indígena Apinajé de Sinais
3. Língua Indígena Asurini de Sinais
4. Língua Indígena Caixana de Sinais
5. Língua Indígena Cinta Larga de Sinais
6. Língua Indígena Fulni-ô de Sinais
7. Língua Indígena Guarani Kaiowá de Sinais
8. Língua Indígena Hãtxa Kui de Sinais
9. Língua Indígena Ka’apor de Sinais
10. Língua Indígena Kaingang de Sinais
11. Língua Indígena Kambeba de Sinais
12. Língua Indígena Macuxi de Sinais
13. Língua Indígena Marubo de Sinais
14. Língua Indígena Maxakali de Sinais
15. Língua Indígena Munduruku de Sinais
16. Língua Indígena Nambikwara de Sinais
17. Língua Indígena Paiter Suruí de Sinais
18. Língua Indígena Pankararu de Sinais
19. Língua Indígena Pataxó de Sinais
20. Língua Indígena Potiguara de Sinais
21. Língua Indígena Sateré-Mawé de Sinais
22. Língua Indígena Tapajó de Sinais
23. Língua Indígena Tapayuná de Sinais
24. Língua Indígena Tapebá de Sinais
25. Língua Indígena Tentehar de Sinais
26. Língua Indígena Terena de Sinais
27. Língua Indígena Tupinambá de Sinais
28. Língua Indígena Wapichana de Sinais
29. Língua Indígena Wauja de Sinais
30. Língua Indígena Xakriabá de Sinais
31. Língua Indígena Xukuru do Ororubá de Sinais
32. Língua Indígena Yanomami de Sinais
33. Língua Indígena Atikum de Sinais
34. Língua Indígena Tikuna de Sinais
35. Língua Indígena Kokama de Sinais
“Esses mapas são fundamentais para evidenciar o caráter nacional e diverso desse movimento”
As Línguas Indígenas de Sinais ganham território
No debate sobre o reconhecimento e a valorização das Línguas Indígenas de Sinais, apresento as siglas LIS , para as Línguas Indígenas de Sinais, e TILIS, que representa os Tradutores Intérpretes das Línguas Indígenas de Sinais. Essa nomenclatura considera, em primeiro lugar, a identidade indígena e, em seguida, a modalidade linguística. Apresento ainda um mapa ilustrativo do movimento que vem ocorrendo no sentido de dar visibilidade a esses tesouros culturais que são as Línguas Indígenas de Sinais. O mapeamento aponta que já somos 21 indígenas se debruçando sobre as LIS de 17 povos, articulados no Grupo de Trabalho das Línguas Indígenas de Sinais.
Como indígena do povo Pataxó Hãhãhãe, coordenador geral do Grupo de Trabalho Nacional das Línguas Indígenas de Sinais, parte integrante da Década Internacional das Línguas Indígenas no Brasil (UNESCO), e doutorando na luta pela inclusão das LIS no currículo das escolas indígenas, mapeei 31 Línguas Indígenas de Sinais. Esse mapeamento advém da leitura de trabalhos que consideram aspectos não apenas linguísticos, mas sobretudo identitários, culturais e educacionais.
Nos mapas apresentados, relaciono os povos e etnias indígenas que contam com representantes surdos e ouvintes, usuários de Libras e das Línguas Indígenas de Sinais, integrantes do Grupo de Trabalho. Esses mapas são fundamentais para evidenciar o caráter nacional e diverso desse movimento, que hoje reúne representantes de 43 povos, distribuídos em 22 estados da federação.
O ensino do BRASLIND (português indígena), como segunda língua (L2) na modalidade escrita para alunos indígenas surdos, é um processo novo e complexo, que exige abordagens pedagógicas diferenciadas. As Línguas Indígenas de Sinais (LIS) constituem a primeira língua (L1) de muitos indígenas surdos, enquanto o BRASLIND, em sua forma escrita, é geralmente aprendido como L2, o que demanda estratégias específicas para favorecer esse processo de aprendizagem.
Sinais de alguns povos indígenas nas LIS:
- Fulni-ô
- Guarani Kaiowá
- Kaingang
- Pankararu
- Terena
- Xakriabá
- Tupinambá
- Ka’apor
- Yanomami
- Pataxó
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REFERÊNCIAS
INDIRA, Simionatto Stedile Assis Moura. Língua Indígena Paiter Suruí de Sinais (LIPSS): cartografia social visual. 2025. 131 f. Tese de Doutorado (Doutorado em Linguística) – Universidade do estado de Mato Grosso (UNEMAT), Cárcere, 2025.
JESUS, Jessiá Braz de. Educação intercultural indígena e educação matemática: o percurso de um jovem surdo da etnia Pataxó. Revista do Programa de Pós- graduação em Educação Matemática da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Volume 11, número 27 – 2018. Disponível em https://periodicos.ufms.br/index.php/pedmat/article/view/7248/5511. Acesso em 17/072023.
POMPEU, Inai’ury Carneiro. O Desenvolvimento da Língua Indígena de Sinais do Povo Tentehar. (TCC) Licenciatura Intercultural para Educação Escolar Indígena – LIEBI. 2022. Ciências da Linguagem. Universidade Estadual do Maranhão – UEMA. 2022.
SANTOS, David Kaique Rodrigues dos. Língua Indígena Pataxó de Sinais: um enfoque na formação escolar dos indígenas pataxós surdos. 2024. 226 f. Dissertação (Mestrado em Relações Étnicas e Contemporaneidade) – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Jequié, 2024.
SANTOS, David Kaique Rodrigues dos et al.. A importância da formação do TILIS/TILSP na educação de indígenas surdos.. In: O Primeiro Seminário Nacional de Línguas Indígenas de Sinais-SENLIS. Anais…Bragança(PA) UFPA, 2023.
SILVA, Bruno Henrique da. Educação de indígenas surdos em uma comunidade Pankararu no interior de Pernambuco: Educação Inclusiva, Educação Bilíngue ou o quê? Universidade Federal de São Carlos – São Paulo, 2019.
SILVA, B. H. da ., Candia, C. E. S. ., & Santos, D. K. R. dos . (2023). Meu lugar de fala: formação e atuação de professores e tradutores intérpretes de Línguas Indígenas de Sinais. Cadernos Macambira, 7(3), 290–297. Recuperado de https://revista.lapprudes.net/index.php/CM/article/view/821









