
Foto: Carlos Almeira/Cimi-AO
Aldeia Vaka Visu, Terra Indígena Nukini (AC) – A juventude indígena do Acre deu um importante passo na articulação e mobilização pela defesa de seus direitos e territórios. Entre os dias 16 e 18 de outubro de 2025, a aldeia Vaka Visu, na Terra Indígena Nukini, em Feijó (AC), sediou o Encontro da Juventude Indígena dos povos Nawa e Nukini, com a participação de representantes dos povos Hunikuin e Shanenawá da região do Rio Envira. O encontro, que reuniu cerca de 70 jovens indígenas das aldeias Haka, Panã, Maluquinha, Isã, Vaka Visu, Kamô, Novo Recreio e Boca Tapada, nasceu da iniciativa dos próprios jovens Nukini, que buscaram replicar em suas comunidades a experiência de articulação vivida em um encontro anterior realizado em Feijó, em 2024.
A presença de jovens do Centro de Juventude da Diocese de Cruzeiro do Sul, coordenado pelos Irmãos Maristas, reforçou o caráter inter-religioso e o apoio da sociedade civil à causa indígena. Com o tema “Juventude Indígena: Raízes de Resistência na Proteção do Território” e o lema “Terra sagrada não se negocia, se defende!”, o encontro se consolidou como espaço de profunda reflexão, reafirmação cultural e mobilização política – em consonância com o movimento indígena nacional na defesa inegociável dos direitos originários.
A luta contra a Lei 14.701 e o protagonismo jovem
Um dos pontos centrais das discussões foi a Lei 14.701/2023, que regulamenta o chamado “Marco Temporal” e representa um grave retrocesso, ameaçando os direitos constitucionais dos povos indígenas. Lideranças de referência, como Cacique Railson Nawa e Paulo Nukini, partilharam com a juventude as dificuldades históricas do movimento indígena, memórias e dores de uma trajetória marcada pela resistência, reforçando a urgência de que a nova geração se insira de forma consciente e ativa nessa luta ancestral.
“Entre as rodas de conversa e reflexões coletivas, os jovens debateram a importância dos conselhos como instrumentos de controle social”

Foto: Carlos Almeira/Cimi-AO
O propósito é fortalecer a mobilização pela demarcação e proteção dos territórios, hoje ainda mais vulneráveis diante da legislação anti-indígena. Entre as rodas de conversa e reflexões coletivas, os jovens debateram a importância dos conselhos como instrumentos de controle social e a necessidade de escolher lideranças preparadas para ocupar esses espaços – garantindo que a voz dos povos indígenas seja ouvida e respeitada nas instâncias de decisão, especialmente na implementação e na qualidade das políticas públicas.
A força das mulheres indígenas
O encontro abriu um espaço de grande significado para as vozes femininas da resistência, destacando o protagonismo das lideranças indígenas mulheres que, na linha de frente, trazem a força e a sensibilidade de suas perspectivas. Lucila Nawa e Valdenice Nukini compartilharam com os jovens os desafios de ser mulher indígena no movimento, conciliando todos papéis que assumem – papéis que se entrelaçam no mesmo fio da resistência.
“Não abandonem a luta – sejam homens, mulheres, jovens. Devem se orgulhar de ser indígenas, com suas pinturas, seus chapéus. ‘Não ser um índio pelado’, porque sem nossas pinturas e adereços é assim que eu me sinto. Ser indígena é saber de onde veio, conhecer sua história, seu povo, sua cultura. Nós não viramos índio, nascemos indígenas. Ninguém pode dizer quem vocês são – vocês devem escolher o que querem e onde devem ficar”, relatou Lucila Nawa, em um discurso que ecoou pela aldeia.
“Não abandonem a luta – sejam homens, mulheres, jovens. Devem se orgulhar de ser indígenas, com suas pinturas”

Foto: Carlos Almeira/Cimi-AO
Destacando o papel central das mulheres na mobilização, Valdenice Nukini convocou as jovens indígenas a assumir a luta em defesa e representação de seus povos, deixando uma mensagem de força e resiliência: “Vão nos chamar de loucas e tentar calar nossa boca, mas eles não vão nos silenciar.”
As palavras das lideranças femininas tocaram fundo nas jovens presentes, reafirmando o protagonismo e a importância das mulheres na luta pela terra, pela memória e pelos direitos.
Falsas soluções ambientais e a ameaça do mercado de carbono
Outro tema crucial abordado foi o impacto das mudanças climáticas e das chamadas falsas soluções ambientais, como o mecanismo de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD) e o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). A discussão teve como base a cartilha “Mercado de Carbono e Territórios Indígenas: não nos enganam com as falsas soluções”, que serviu de guia para refletir sobre como essas políticas já alcançam as aldeias, muitas vezes de forma disfarçada – como ocorre com o PSA, implementado por meio de agentes agroflorestais.
“Ao reafirmar suas raízes e o compromisso com a defesa do território, esses jovens se colocam como vanguarda da resistência”

Foto: Carlos Almeira/Cimi-AO
O debate buscou conscientizar a juventude sobre os riscos da mercantilização da natureza e dos territórios, reafirmando a compreensão de que a proteção da terra é um ato de soberania, não um serviço a ser comprado ou vendido.
Juventude urbana e perspectivas futuras
O encontro também promoveu um importante intercâmbio de diálogo com a juventude em contexto urbano. Jovens do Instituto de Juventude partilharam seus “sonhos e desafios” na cidade, conectando a luta territorial às questões que atravessam a vida fora das aldeias.
O Encontro da Juventude Indígena dos povos Nawa e Nukini, realizado na aldeia Vaka Visu, revelou a vitalidade e a consciência política da nova geração. Ao reafirmar suas raízes e o compromisso com a defesa do território, esses jovens se colocam como vanguarda da resistência, preparados para enfrentar os desafios impostos por leis como a 14.701 e pelas ameaças das falsas soluções ambientais – garantindo que a luta indígena no Acre siga viva, firme e enraizada.

Foto: Carlos Almeira/Cimi-AO