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Vozes do cerrado: atingidos pelo Matopiba denunciam destruição aos territórios e vidas

Foto: Andressa Algave/Cimi Regional Maranhão

Por Andressa Algave, Assessoria de Comunicação do Cimi Regional Maranhão – Matéria publicada originalmente na edição 478 do Jornal Porantim [1]

Rios contaminados, matas consumidas pelo fogo, plantas de medicina desaparecendo e grilagem de terras: lideranças revelam os danos que resistem à última fronteira agrícola do Brasil. Diante dessa realidade, povos indígenas, assentados e pastorais sociais dos estados da Bahia, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Piauí e Tocantins se reuniram em Cristalândia (TO), nos dias 27 e 28 de setembro, para o Encontro de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais Atingidos pelo Matopiba. No encontro, denunciaram os impactos do projeto de expansão do agronegócio, que transformou a promessa de desenvolvimento em dor e destruição para quem habita essas terras há gerações.

O evento contou com a participação de lideranças dos povos Akroá Gamella, Apinajé, Javaé, Kanela, Karajá Iny, Kiriri, Krahô, Krahô-Kanela, Krenjê, Krepym, Memortumré Kanela, Timbira Krepym, Tuxá e Xerente, além de assentados da Praia Norte e Chave de Ouro, do Tocantins, para uma programação com palestras e rodas de conversa sobre os danos sofridos pelo projeto.

Também estiveram presentes apoiadores da Regional Norte 3 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da Cáritas Alemã, da Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT) e delegações do Cimi dos regionais Leste, Nordeste, Maranhão, Goiás/Tocantins (GOTO) e Mato Grosso, além da equipe do Secretariado Nacional.

“Os danos ambientais do Matopiba extrapolam em muito a região, que faz parte dessa chamada fronteira agrícola”

Foto: Andressa Algave/Cimi Regional Maranhão

Ivanilda Santos, secretária adjunta do Cimi, explicou que o encontro foi um espaço de troca. “Eles relatam que esse desenvolvimento prometido não chega para eles. Pelo contrário, traz a morte. A morte de seu bioma, o Cerrado, a mata, os peixes, os rios todos contaminados com o veneno do agronegócio, o fogo, pois todos os anos os territórios vêm sofrendo muito com o fogo, em que se destrói os seus biomas”, disse.

Durante o encontro, as lideranças denunciaram a grilagem de terras, a mineração e o arrendamento de territórios indígenas, quilombolas e camponeses impulsionados pelo Matopiba, cuja sigla é formada pelas iniciais dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Segundo os depoimentos, os impactos não se limitam aos estados do acrônimo, mas vão além, atingindo Mato Grosso e Minas Gerais, que vêm registrando violências associadas à expansão do gado e das monoculturas incentivadas pelo projeto.

Lethicia Reis, assessora jurídica do Cimi Regional Leste, destacou que o encontro foi um espaço importante para aprofundar a compreensão sobre o Matopiba e seus impactos sobre os territórios. “O Matopiba é uma política pública que facilita os empreendimentos que já vinham acontecendo, principalmente no Cerrado do Brasil, a partir da década de 1980, e que envolvem irrigação, muito plantio de soja e empreendimentos relacionados a isso. O que a gente percebe que os danos ambientais do Matopiba extrapolam em muito a região, que faz parte dessa chamada fronteira agrícola”, afirmou.

“Os povos e comunidades denunciam as violações e os danos socioambientais provocados pela expansão do agronegócio na chamada última fronteira agrícola do Brasil”

Foto: Andressa Algave/Cimi Regional Maranhão

Em carta, lideranças relatam danos

Entre os relatos, as comunidades afirmaram que o Matopiba tem transformado suas regiões em “zonas de sacrifício”, em nome de um modelo de desenvolvimento que intensifica as mudanças climáticas e a injustiça socioambiental.

Maria da Conceição Akroá, presidenta da Associação dos Akroá Gamella do Uruçuí (PI), destacou que tanto as comunidades quanto o Cerrado, bioma predominante na região afetada, sofrem os efeitos do avanço do agronegócio: “Hoje o nosso bioma Cerrado está deserto, sem as nossas plantas nativas. Está destruído, e o projeto [Matopiba] está trazendo mais impactos, como os agrotóxicos e a grilagem de terras. No Encontro, vimos os impactos que cada estado e cada pessoa está sofrendo. Nossas plantas de medicina, por exemplo, já não existem mais.”

Na “Carta dos povos atingidos pelo Matopiba em defesa dos territórios livres”, lançada ao fim do encontro, os povos e comunidades denunciam as violações e os danos socioambientais provocados pela expansão do agronegócio na chamada última fronteira agrícola do Brasil.

O documento exige a demarcação das terras indígenas, a titulação dos territórios quilombolas, regularização de outras áreas tradicionais e a realização da reforma agrária. A carta também reivindica a criação de uma Coordenação Regional da Funai no Piauí, a revogação de leis, como a inconstitucionalidade da lei 14.701/23, e decretos que legitimam o roubo de terras, além da suspensão dos licenciamentos de grandes empreendimentos vinculados ao Matopiba e a reparação dos danos socioambientais causados por esses projetos.