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Entre cuidado e compromisso: o trabalho atual da Missão Catrimani com os Yanomami

Fundada em 1965, a Missão Catrimani representa um modelo de presença respeitosa entre os povos indígenas. Foto: Missão Catrimani

Por Ligia Apel, assessoria de comunicação do Cimi Regional Norte I e Hellen Loures da Assessoria de Comunicação do Cimi- Matéria publicada originalmente na edição 478 do Jornal Porantim [1]

Em agosto de 2025, a Missão Catrimani completou 60 anos de convivência com o povo Yanomami. Ao longo dessas décadas, os missionários têm se dedicado à vida e à cultura dos indígenas, acompanhando crianças, jovens, mulheres, lideranças e idosos em diferentes aspectos da vida comunitária. Com iniciativas que vão da etnoeducação à promoção da segurança alimentar, passando pelo incentivo à geração de renda e pelo apoio à saúde, a missão busca unir tradição e cuidado, fortalecendo a autonomia, a identidade e a autoestima do povo Yanomami.

Em entrevista ao jornal Porantim, Padre Bob Francis Mulega, missionário contemporâneo dos religiosos Cansolata, compartilha suas experiências, desafios e aprendizados ao lado dos Yanomami. Ele reflete sobre o fortalecimento da cultura, os desafios enfrentados hoje e destaca que o que move a missão atualmente é esperança, fé, unidade e compromisso, sempre pautados em respeito, amizade e compromisso com a vida, a cultura e a dignidade.

Porantim – Quais as atividades desenvolvidas hoje na Missão Catrimani?

Pe. Bob – Atualmente, a equipe missionária da Missão Catrimani acompanha o povo Yanomami em todas as etapas da vida: crianças, jovens, mulheres, lideranças e também os mais velhos.

Com as crianças, o trabalho inclui apoio escolar – leitura, escrita e matemática – sempre em diálogo com suas práticas culturais, como a caça e a vida comunitária. Em datas especiais, como Páscoa, Natal e Dia dos Povos Indígenas, organizamos encontros que reúnem crianças de várias comunidades, fortalecendo a convivência e o sentimento de unidade.

Com as mulheres, o foco é duplo: o cuidado com mães e crianças em situação de desnutrição, oferecendo orientação e acompanhamento, e o incentivo à geração de renda, por meio do projeto de cestaria. O artesanato produzido é comercializado em parceria com organizações, como o ISA (Instituto Socioambiental), e, em troca, as mulheres recebem utensílios e bens necessários ao dia a dia. Além disso, realizamos formações em parceria com universidades e institutos de pesquisa, explorando usos sustentáveis de produtos da floresta, como a banana transformada em biscoito, por exemplo.

“Os missionários atuam como mediadores culturais na saúde, auxiliando nas traduções entre os Yanomami e os profissionais de saúde”

Com as lideranças, promovemos encontros de formação e de escuta, valorizando sua experiência e fortalecendo os processos comunitários de decisão.

Com os jovens, o objetivo principal é prepará-los como futuros líderes. O projeto Concentração Cultural e Cura tem sido essencial nesse sentido, ajudando-os a se tornarem protagonistas de sua própria história e, ao mesmo tempo, a valorizar sua identidade cultural diante dos desafios do contato com o mundo externo.

Além disso, os missionários atuam como mediadores culturais na saúde, auxiliando nas traduções entre os Yanomami e os profissionais de saúde. No cotidiano, o diálogo intercultural é constante, fortalecendo vínculos e a confiança mútua.

Porantim – Em termos de segurança alimentar, houve muitas mudanças nas culturas alimentares dos Yanomami?

Pe. Bob – As mudanças foram pontuais. Até cerca de dois anos atrás, a alimentação mantinha-se praticamente inalterada. A principal mudança ocorreu com a entrada da política de distribuição de cestas básicas, que introduziu alimentos como café e açúcar na rotina.

Apesar disso, a base da segurança alimentar Yanomami permanece nas roças tradicionais, com cultivo de macaxeira, banana, milho e outros alimentos, além do consumo de frutas da floresta, como bacaba, açaí, patuá e pupunha. Assim, mesmo com algumas influências externas, a cultura agrícola e a autonomia alimentar continuam firmes.

“A presença missionária entre os Yanomami sempre foi e continua sendo uma presença de testemunho, amizade e consolação”

Missão Catrimani em seus 60 anos celebra história de fé, serviço e comunhão, reafirmando compromisso com povo Yanomami. Foto: Missão Catrimani

Porantim – Quanto à educação, ela foi feita na língua portuguesa? Que resultados trouxe para quem se alfabetizou?

Pe. Bob – A educação na Missão Catrimani segue a proposta da etnoeducação, que valoriza a alfabetização na língua materna Yanomami. A língua portuguesa não é a base do ensino, pois a prioridade é fortalecer a identidade e a comunicação em sua própria língua, que possui registro alfabético próprio.

Esse modelo trouxe resultados significativos: a maioria dos Yanomami alfabetizados consegue ler, escrever e se expressar plenamente em sua língua. O português não é amplamente utilizado, e a educação em língua materna fortalece a autoestima, a cultura e a autonomia intelectual do povo.

Porantim – A saúde é crucial. Podemos dizer que a Missão evitou perdas de vidas com doenças trazidas pelos invasores?

Pe. Bob – Sim. A Missão teve um papel fundamental na proteção da saúde Yanomami. Desde sua chegada, os missionários acompanharam de perto as comunidades, especialmente diante das doenças trazidas por invasores.

É verdade que erradicar completamente certas enfermidades não foi possível, sobretudo diante da falta de medicamentos e profissionais em alguns períodos. Mas, ainda assim, a presença missionária foi decisiva para reduzir perdas humanas, apoiar o controle de surtos e articular o diálogo entre os Yanomami e os serviços de saúde.

Porantim – A Missão contribuiu com a demarcação do território Yanomami?

Pe. Bob – Sim, e de maneira decisiva. Desde 1985, os missionários da Missão Catrimani se engajaram fortemente na defesa dos direitos indígenas.

“O verdadeiro compromisso é com o bem comum, com a defesa da vida, da cultura e da dignidade”

Entre 1989 e 1991, o Exército ocupou a região e chegou a expulsar os missionários, mas isso não impediu a continuidade da luta. O padre João Saffirio, junto a outros aliados, teve papel de grande destaque. Finalmente, em 25 de maio de 1992, foi homologada a Terra Indígena Yanomami, um marco histórico para a proteção do território e da cultura desse povo. A contribuição missionária nesse processo foi fundamental.

Porantim – Que mensagem você deixa não só para as lideranças, mas para todo o povo Yanomami atendido pela Missão?

Pe. Bob – A mensagem que deixo é de esperança, unidade e compromisso. A presença missionária entre os Yanomami sempre foi e continua sendo uma presença de testemunho, amizade e consolação. Estamos juntos nesta caminhada, que muitas vezes se assemelha a uma verdadeira luta pela vida.

É essencial que quem trabalha com os Yanomami tenha clareza de suas intenções: alguns podem agir por interesse próprio, mas o verdadeiro compromisso é com o bem comum, com a defesa da vida, da cultura e da dignidade.

A missão não deve ser vista como uma simples tarefa, mas como uma forma de vida. E quando compreendemos isso, cuidamos com amor das pessoas que fazem parte dela. Todos precisamos uns dos outros — Yanomami e não Yanomami — para proteger a vida, fortalecer a cultura e valorizar as tradições.

Nada do que temos aqui na Terra é permanente. Mas aquilo que cultivamos com fé, respeito e amor — a vida, a cultura e a criação de Deus — é o que realmente permanece. Por isso, seguimos juntos na missão de cuidar e proteger esse grande dom.